
Tudo o que envolve a gestão do médico José Pessoa Leal, o Dr. Pessoa, parece assumir proporções superlativas. Infelizmente, não se trata de obras entregues, serviços eficientes ou legado administrativo. O que cresce, mês após mês, é o tamanho do rombo, a lista de irregularidades e a sensação generalizada de que a Prefeitura de Teresina foi tratada como cofre aberto. O atual prefeito Sílvio Mendes já fala em um buraco de bilhões de reais nas contas do município. Bilhões. No plural. E agora surge mais um capítulo assombroso, desta vez com carimbo federal.
O Ministério Público Federal ingressou com ação de improbidade administrativa contra Dr. Pessoa e o ex-presidente da Fundação Municipal de Saúde, Antônio Gilberto Albuquerque Brito. O motivo é o uso irregular de R$ 118,7 milhões de recursos do SUS, dinheiro carimbado para a saúde que, segundo a investigação, foi desviado de sua finalidade legal. Não se trata de erro contábil menor ou falha burocrática. São 49 transferências feitas entre janeiro de 2022 e março de 2023, retirando recursos do Bloco de Custeio do SUS para cobrir folha salarial, prática expressamente vedada pelas normas do Ministério da Saúde, salvo exceções que, segundo o MPF, não foram comprovadas.
O caso não surgiu do nada. A Controladoria-Geral da União já havia acendido o alerta ao identificar falhas graves nos mecanismos de controle, apontando que a movimentação financeira misturava recursos vinculados com verbas ordinárias. Em bom português, o dinheiro era embaralhado de tal forma que dificultava o rastreamento, a fiscalização e a responsabilização. Um prato cheio para quem prefere operar na penumbra administrativa.
A gravidade não está apenas no valor, embora R$ 118 milhões falem por si. O problema maior é o padrão. Tribunal de Contas, Prefeitura atual, Câmara Municipal e agora o MPF desenham o mesmo retrato, desorganização, omissão e permissividade. É tanto rombo, tanto desvio, tanta sangria do erário que a sensação é a de que uma verdadeira quadrilha se apossou da viúva, enquanto o chefe do Executivo garante que não viu nada. Dr. Pessoa jura que estava alheio, que se houve “danação” ou “traquinagem”, “quem fez que pague”. O detalhe inconveniente é que assessores enriqueceram, contratos explodiram e os cofres esvaziaram, tudo isso sem que o gestor percebesse. Um feito raro, ser ao mesmo tempo prefeito, médico e completamente cego, surdo e daltônico para cifras milionárias.
A ironia é cruel. Dr. Pessoa vendeu-se como o político das mãos limpas, o homem simples, aquele que entrou para a história da Assembleia devolvendo verba de gabinete. Convenceu. Enganou direitinho. Se não colocou dinheiro no próprio bolso, permitiu que colocassem, e em escala industrial. E o mais inquietante é que nem todos os escândalos vieram à tona, especialmente em áreas sensíveis como a comunicação institucional, onde uns foram silenciados e outros prosperaram generosamente.
Agora, o MPF pede ressarcimento integral ao erário e multa civil, que juntos somam R$ 237,5 milhões. O processo segue para a Justiça Federal, mas o dano político e administrativo já está feito. O caso expõe não apenas uma gestão específica, mas um modelo de irresponsabilidade que cobra seu preço na ponta do sistema, menos remédios, menos insumos, menos atendimento e mais sofrimento para quem depende do SUS. Em Teresina, o rombo deixou de ser exceção. Virou método.
Nossa reportagem não conseguiu contatar Dr. Pessoa, mas assegura desde já o espaço no Gazeta Hora1 para apresentar a sua defesa ou narrativa dos fatos. É só entrar em contato.
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