
O café voltou a ocupar o centro de uma disputa que mistura economia, política e geopolítica. Mais de cem anos separam o Convênio de Taubaté das tarifas impostas e depois parcialmente recuadas, pelo presidente Donald Trump sobre o café brasileiro. O cenário mudou, os atores também, mas a lógica se repete: quando o Estado interfere no mercado, alguém paga a conta. Normalmente, produtores e consumidores.
A relação entre café e poder não é novidade. Depois da Festa do Chá de Boston, em 1773, o boicote ao chá britânico transformou o café em símbolo da nova República americana. Cafés e tabernas viraram pontos de debate político, e a troca da bebida representava, no dia a dia, a rejeição a impostos e ao controle da metrópole. Com o tempo, os EUA se tornaram o maior mercado consumidor do mundo, enquanto o Brasil assumiu o papel de principal fornecedor, criando uma dependência mútua que vai muito além do gosto pela bebida.
No início do século 20, o Brasil também recorreu ao Estado para tentar controlar o mercado. O Convênio de Taubaté, firmado em 1906, fez governos comprarem estoques de café para segurar preços internacionais. A medida evitou uma crise imediata e manteve empregos, mas trouxe endividamento e não resolveu o problema estrutural. O país não tinha poder para mandar sozinho no mercado global, e o plano perdeu força com o tempo.
Mais de um século depois, Washington usou tarifas como instrumento político. O “tarifaço” de Trump atingiu em cheio o café brasileiro, em um momento de tensão diplomática e discurso duro contra parceiros comerciais. O efeito foi rápido: preços mais altos para o consumidor americano e pressão sobre empresas do setor. Diante da inflação e do desgaste interno, a Casa Branca recuou e retirou a sobretaxa específica. O episódio deixa um recado claro: usar o comércio como arma pode render ganho político no curto prazo, mas cobra um preço alto, até na xícara de café do dia a dia.
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