Domingo, 28 de Junho de 2026
33°

Tempo nublado

Teresina, PI

Política PIAUÍ ENDIVIDADO

Piauí se endivida enquanto a Alepi aplaude: mais um empréstimo bilionário aprovado sem debate

Em um Estado sem oposição efetiva, deputados transformam a Assembleia em mera extensão do Palácio de Karnak e aprovam, sem questionar, novos empréstimos que empurram o Piauí para um futuro fiscal cada vez mais comprometido

05/12/2025 às 05h10 Atualizada em 05/12/2025 às 20h12
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
O governo vai por a mão em mais R$ 8 bilhões - Foto: Reprodução
O governo vai por a mão em mais R$ 8 bilhões - Foto: Reprodução

O Piauí de sempre: a Alepi bate continência e Rafael Fonteles passa mais um empréstimo bilionário

Se existe algo mais previsível que o calor dos meses do BR-O-BRó em Teresina, é a Assembleia Legislativa do Piauí chancelando, sem pestanejar, sem pigarrear, sem a sombra de uma dúvida, mais um empréstimo bilionário para o governo Rafael Fonteles. Mais R$ 8 bilhões. A única surpresa seria o contrário: ver a Alepi exercendo aquilo que a Constituição lhe deu como missão, fiscalizar, controlar, contrapor. Mas isso, no Piauí contemporâneo, virou peça de museu. Não se vê, não se ouve, não se pratica.

O governador Rafael Fonteles envia o pedido de endividamento, meramente protocolar; a Alepi, disciplinada, abaixa a cabeça. O governo repete o mesmo texto, o mesmo argumento, a mesma justificativa plastificada; os deputados respondem com a mesmíssima coreografia: “amém, excelência.” É quase litúrgico.

E como toda liturgia, cumpre-se sem pensar.

Rafael Fonteles, o “gênio da matemática” estudado em Harvard, parece ter saído de lá com um manual de duas páginas, contendo duas operações prioritárias:

  1. Contrair dívida.

  2. Aumentar tributos.

Se a pauta for discutir produtividade, eficiência, inovação, crescimento real, diversificação econômica ou inteligência fiscal… aí já complica. Deve não ter caído no vestibular técnico-político do Palácio de Karnak.

E que ninguém se engane: pegar empréstimo não é crime, nem sinal de má gestão, desde que acompanhado de projeto, planejamento, transparência e, sobretudo, resultados. Mas o que se vê no Piauí não é política de investimento: é política de endividamento compulsivo.
Uma estratégia que empurra para o futuro, para as próximas gerações, uma fatura gigantesca com juros, correções e o sorriso maroto de quem sabe que não estará sentado à mesa quando a cobrança chegar.

Três anos de governo e mais de R$ 15 bilhões já passaram pelo caixa sob o selo “empréstimos autorizados pela Alepi”. Em 2023, R$ 2 bilhões. Em 2024, mais R$ 2,5 bilhões. Em 2025, um salto de quase R$ 11 bilhões em autorizações, fora os novos pacotes, acima de R$ 8 bilhões, que ainda serpenteiam pelas comissões como serpentes mansas.

A Dívida Consolidada Líquida do Estado, que estava em R$ 7,24 bilhões em 2023, saltou para R$ 10,75 bilhões em 2024, mantendo-se em R$ 10,9 bilhões em 2025, mesmo com parte dos financiamentos ainda nem liquidados. Os números gritam.
O governo finge que são sussurros.

E onde entra a Alepi nessa equação?
Na função nada glamourosa de balcão homologador. Carimbadora-geral do governo.
Não há oposição, apenas uma ou duas vozes bem ao estilo João Batista pregando sozinho no deserto da Judéia.
A base governista é total, massiva, confortável, quase orgânica. O plenário parece mais um organograma vivo do Palácio do Karnak. E como diria Nelson Rodrigues, com seu gênio para as obviedades tragicamente humanas: “Toda unanimidade é burra.”
Burra e perigosa.

Porque um Legislativo unânime não legisla, carimba.
Não controla, obedece.
Não contrapesa, adora.
E um Poder que se ajoelha perde o direito de se chamar Poder.

Mesmo diante da admissão pública do próprio secretário da Fazenda, Emílio Júnior, de que a capacidade financeira do Estado já está no limite, os parlamentares seguiram aprovando novos pacotes. Nesta quarta-feira, lá estava o plenário, novamente reverente, aprovando um novo empréstimo de US$ 600 milhões (R$ 3,2 bilhões) junto ao BID em primeira votação. Relatório positivo, parecer positivo, bancada positiva, só o caixa público continua negativo.

Somando tudo, o governo busca mais de R$ 8 bilhões adicionais para “reestruturar dívidas”, incluindo dívidas produzidas pelo próprio governo que agora pede dinheiro para corrigi-las. Trocando em miúdos, o governo que empréstimos para pagar empréstimos.
É o ciclo da tartaruga correndo atrás do próprio casco, e perdendo.

Pergunta-se: isso é ilegal?
Não.
Mas é moral, ético, republicano, democrático?
Aí já estamos em outra conversa, uma conversa que a Alepi se recusa a ter.

Porque democracia de verdade não é monólogo.
É contraditório, é tenso, é fricção de ideias.
O que temos no Piauí é um monólogo governamental apresentado num auditório lotado de plateia dócil, domesticada, disciplinada. Anestesiada pelas beneces do Poder.

E enquanto o Executivo fala sozinho, o Estado perde.
Perde capacidade de planejamento.
Perde soberania fiscal.
Perde identidade institucional.
Perde futuro.

Mas, quem se importa?

O Piauí continua sendo um Estado democrático de direito, mas um Estado democrático de direito com personalidade submissa, acanhada, estendida no chão diante de um governo que descobriu que basta pedir para receber. Afinal, está pagando.

E nesse ritmo, quando o governo bater novamente à porta com mais um pedido bilionário de crédito, restará apenas uma pergunta:

Quem vai dizer “basta” primeiro, a Alepi, o contribuinte ou o próprio caixa do Estado?

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
Teresina, PI Atualizado às 12h01 - Fonte: ClimaTempo
33°
Tempo nublado

Mín. 23° Máx. 32°

Seg 36°C 22°C
Ter 36°C 21°C
Qua 36°C 20°C
Qui 37°C 23°C
Sex 36°C 25°C
Horóscopo
Áries
Touro
Gêmeos
Câncer
Leão
Virgem
Libra
Escorpião
Sagitário
Capricórnio
Aquário
Peixes