
Se existe algo mais previsível que o calor dos meses do BR-O-BRó em Teresina, é a Assembleia Legislativa do Piauí chancelando, sem pestanejar, sem pigarrear, sem a sombra de uma dúvida, mais um empréstimo bilionário para o governo Rafael Fonteles. Mais R$ 8 bilhões. A única surpresa seria o contrário: ver a Alepi exercendo aquilo que a Constituição lhe deu como missão, fiscalizar, controlar, contrapor. Mas isso, no Piauí contemporâneo, virou peça de museu. Não se vê, não se ouve, não se pratica.
O governador Rafael Fonteles envia o pedido de endividamento, meramente protocolar; a Alepi, disciplinada, abaixa a cabeça. O governo repete o mesmo texto, o mesmo argumento, a mesma justificativa plastificada; os deputados respondem com a mesmíssima coreografia: “amém, excelência.” É quase litúrgico.
E como toda liturgia, cumpre-se sem pensar.
Rafael Fonteles, o “gênio da matemática” estudado em Harvard, parece ter saído de lá com um manual de duas páginas, contendo duas operações prioritárias:
Contrair dívida.
Aumentar tributos.
Se a pauta for discutir produtividade, eficiência, inovação, crescimento real, diversificação econômica ou inteligência fiscal… aí já complica. Deve não ter caído no vestibular técnico-político do Palácio de Karnak.
E que ninguém se engane: pegar empréstimo não é crime, nem sinal de má gestão, desde que acompanhado de projeto, planejamento, transparência e, sobretudo, resultados. Mas o que se vê no Piauí não é política de investimento: é política de endividamento compulsivo.
Uma estratégia que empurra para o futuro, para as próximas gerações, uma fatura gigantesca com juros, correções e o sorriso maroto de quem sabe que não estará sentado à mesa quando a cobrança chegar.
Três anos de governo e mais de R$ 15 bilhões já passaram pelo caixa sob o selo “empréstimos autorizados pela Alepi”. Em 2023, R$ 2 bilhões. Em 2024, mais R$ 2,5 bilhões. Em 2025, um salto de quase R$ 11 bilhões em autorizações, fora os novos pacotes, acima de R$ 8 bilhões, que ainda serpenteiam pelas comissões como serpentes mansas.
A Dívida Consolidada Líquida do Estado, que estava em R$ 7,24 bilhões em 2023, saltou para R$ 10,75 bilhões em 2024, mantendo-se em R$ 10,9 bilhões em 2025, mesmo com parte dos financiamentos ainda nem liquidados. Os números gritam.
O governo finge que são sussurros.
E onde entra a Alepi nessa equação?
Na função nada glamourosa de balcão homologador. Carimbadora-geral do governo.
Não há oposição, apenas uma ou duas vozes bem ao estilo João Batista pregando sozinho no deserto da Judéia.
A base governista é total, massiva, confortável, quase orgânica. O plenário parece mais um organograma vivo do Palácio do Karnak. E como diria Nelson Rodrigues, com seu gênio para as obviedades tragicamente humanas: “Toda unanimidade é burra.”
Burra e perigosa.
Porque um Legislativo unânime não legisla, carimba.
Não controla, obedece.
Não contrapesa, adora.
E um Poder que se ajoelha perde o direito de se chamar Poder.
Mesmo diante da admissão pública do próprio secretário da Fazenda, Emílio Júnior, de que a capacidade financeira do Estado já está no limite, os parlamentares seguiram aprovando novos pacotes. Nesta quarta-feira, lá estava o plenário, novamente reverente, aprovando um novo empréstimo de US$ 600 milhões (R$ 3,2 bilhões) junto ao BID em primeira votação. Relatório positivo, parecer positivo, bancada positiva, só o caixa público continua negativo.
Somando tudo, o governo busca mais de R$ 8 bilhões adicionais para “reestruturar dívidas”, incluindo dívidas produzidas pelo próprio governo que agora pede dinheiro para corrigi-las. Trocando em miúdos, o governo que empréstimos para pagar empréstimos.
É o ciclo da tartaruga correndo atrás do próprio casco, e perdendo.
Pergunta-se: isso é ilegal?
Não.
Mas é moral, ético, republicano, democrático?
Aí já estamos em outra conversa, uma conversa que a Alepi se recusa a ter.
Porque democracia de verdade não é monólogo.
É contraditório, é tenso, é fricção de ideias.
O que temos no Piauí é um monólogo governamental apresentado num auditório lotado de plateia dócil, domesticada, disciplinada. Anestesiada pelas beneces do Poder.
E enquanto o Executivo fala sozinho, o Estado perde.
Perde capacidade de planejamento.
Perde soberania fiscal.
Perde identidade institucional.
Perde futuro.
Mas, quem se importa?
O Piauí continua sendo um Estado democrático de direito, mas um Estado democrático de direito com personalidade submissa, acanhada, estendida no chão diante de um governo que descobriu que basta pedir para receber. Afinal, está pagando.
E nesse ritmo, quando o governo bater novamente à porta com mais um pedido bilionário de crédito, restará apenas uma pergunta:
Quem vai dizer “basta” primeiro, a Alepi, o contribuinte ou o próprio caixa do Estado?
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