
O terceiro mandato de Lula vem sendo marcado por uma convivência cada vez mais turbulenta com o Congresso Nacional. A relação com a Câmara já degringolou há meses, mas o Senado, que vinha sendo o porto seguro do Planalto para conter rebeliões vindas dos deputados, agora também dá sinais de naufrágio. Tanto que, para evitar o constrangimento quase irreversível de ver o nome de Jorge Messias rejeitado, Lula se viu obrigado a recorrer, mais uma vez, ao bom e velho cofre da República. O vexame maior não seria de Messias, mas de quem o indicou. E o preço para evitar esse mico histórico tende a ser salgado para o erário. As conversas entre Davi Alcolumbre e o Planalto seguem intensas, com cargos e emendas dançando sobre a mesa como se fossem petiscos de boteco em noite de negociação. Em ano pré-eleitoral, a fome de emendas dos senadores é tão insaciável que faria inveja a qualquer comedor de rodízio.
Mas o mais curioso é que, no momento em que o brasileiro imagina que o Supremo Tribunal Federal adotaria algum tipo de postura institucional diante dessa evidente barganha política, o silêncio é o que ecoa. Nem um pigarro de incômodo. Nem um aceno de que as engrenagens da República estão sendo tensionadas além do razoável. E assim seguimos, o Senado faz beicinho, o Planalto finge surpresa, e o STF observa a coreografia como quem assiste a uma repetição previsível de um espetáculo que já conhece o desfecho. Tudo jogo de cena.
No fundo, ninguém aposta que a relação entre o Planalto e o Senado vá realmente azedar. Não quando existe a “boa vontade” dos cofres públicos para adoçar o humor de quem hoje comanda a Casa e tem nas mãos o poder de colocar ou não a indicação de Messias em votação. Em Brasília, chantagem é nome feio, por isso preferem chamar de “articulação”. Barganha vira “composição”. E interesse pessoal, claro, sempre aparece travestido de “compromisso com o país”. O problema é que, frequentemente, o que se negocia ali diz muito mais respeito a carreiras individuais do que à vida dos brasileiros.
E esse enredo ganhou novos contornos quando veio à tona a pequena, porém ruidosa, traição política cometida por Lula ao ignorar Rodrigo Pacheco como possível indicado ao STF. Pacheco, segundo aliados, talvez nutrisse a vã esperança de ser lembrado pelo presidente na hora da escolha. Alimentou sinais, manteve portas abertas, exibiu seus bons modos institucionais, tudo dentro do figurino. Mas, na última hora, descobriu que sequer foi cogitado, o nome era Jorge Messias. Um banho de água fria no Senado. Um problema quente para o Planalto.
Foi nesse vácuo emocional e institucional que Davi Alcolumbre encontrou o clima perfeito para aumentar a pressão. Se Pacheco se sentiu descartado, Alcolumbre percebeu que o Planalto agora precisava correr para evitar um vexame histórico, o Senado rejeitar um indicado petista ao STF. E um Planalto com medo vale ouro. Alcolumbre sabe disso e tem cobrado como quem segura a última peça de um dominó prestes a cair. Os preços? Altos. As exigências? Generosas. Nada pessoal, é apenas Brasília fazendo Brasília.
Ao mesmo tempo, parte do Senado passou a vocalizar abertamente algo que antes era dito somente nos corredores, o currículo de Jorge Messias não empolga. Não se fala de sua capacidade jurídica, de seus estudos, de sua trajetória constitucional. Todos insistem em descrevê-lo como “gente boa”, “simpático”, “evangélico”, como se o cargo de ministro do STF fosse um concurso de carisma ou um retiro espiritual permanente. A Constituição exige algo ligeiramente diferente, notável saber jurídico, reputação ilibada e experiência compatível com a mais alta corte do país. Mas parece que esses detalhes ficaram de lado, soterrados por conversas sobre comportamento pessoal e afinidades com o Planalto.
E aqui reside o grande calo da questão. Messias até pode alegar fé, serenidade e bons princípios, mas sua participação no escândalo do rombo do INSS permanece como uma sombra incômoda sobre sua reputação. Não é detalhe técnico, não é falha de comunicação, é um episódio bilionário que envolve responsabilidade de gestão e consequências para milhões de brasileiros. Em qualquer currículo sério, isso pesa. Em uma indicação ao STF, deveria pesar ainda mais. E pesa tanto que alguns senadores já consideram que a reputação “ilibada” do indicado talvez não seja tão imaculada quanto o Planalto tenta fazer parecer.
No fim, a sabatina de Jorge Messias não deve ser analisada como uma simples formalidade institucional, mas como um retrato perfeito da Brasília que conhecemos, acordos subterrâneos, cofres abertos, frustrações mal resolvidas, trocas de favores, interesses pessoais travestidos de patriotismo e um Supremo que, ao menos por ora, finge não ver o festival de acenos e apertos de mão que antecede qualquer indicação. O destino de Messias, e o custo de sua aprovação, será apenas mais um capítulo dessa novela que insiste em se repetir.
ESCOLA DO RECIFE Tobias Barreto de Menezes: o jurista que revolucionou o pensamento jurídico brasileiro
NAS MÃOS DOS COIOTES Fugindo do “inferno”: por que milhares de cubanos agora escolhem o Brasil para recomeçar a vida?
ATENAS ALAGOANA Penedo: a Atenas do Nordeste que encantou Dom Pedro II e preserva quase cinco séculos de história às margens do Velho Chico
REJEIÇÃO INTERNA Vinícius Dias expõe resistência no PT e revela por que Iasmin recuou da suplência
POLÍCIA FEDERAL Quanto mais mexe, mais fede: cerco da PF aperta e Jaques Wagner vira problema para o Planalto
ACESSO A PF E PGR Vorcaro não queria influência. Queria acesso ao topo da República
JUSTIÇA DO TRABALHO Maria Suzete Monte Diógenes: uma vida dedicada à Justiça, ao conhecimento e ao serviço público
PROPINODUTO MASTER A queda da engolideira: quando o Banco Master deixou de ser banco para virar máquina de poder
TURISMO AMERICANO Ranking revela as melhores cidades dos Estados Unidos em 2026: por onde começar a realizar o sonho americano?
Mín. 23° Máx. 32°