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Quando a narrativa tenta substituir os fatos: o erro de comparar Lula e Bolsonaro

Esquerda e direita não são espelhos opostos, mas projetos de país incompatíveis; tentar equiparar as trajetórias de Lula e Bolsonaro é ignorar a realidade, desprezar dados e se prender ao conforto das narrativas encomendada

29/11/2025 às 16h02
Por: Douglas Ferreira
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Ensaísta João Cezar de Castro Rocha - Foto: Reprodução
Ensaísta João Cezar de Castro Rocha - Foto: Reprodução

A falsa extinção do bolsonarismo e o equívoco analítico de João Cezar de Castro Rocha

 

A entrevista concedida pelo ensaísta João Cezar de Castro Rocha ao jornalista Luis Nassif e publicada em seu canal no YouTube não surpreende pelo conteúdo, mas pela insistência em construir uma realidade paralela onde o bolsonarismo está em “derretimento”, Bolsonaro virou um “poltrão” e Lula é o exemplo máximo de dignidade política. Trata-se de mais um exercício intelectual moldado para caber na narrativa de um campo político em evidente desgaste. O curioso é que, ao tentar decretar o fim do maior movimento de direita da história democrática do Brasil, João Cezar revela mais sobre o próprio viés do que sobre o país real.

A caricatura da tornozeleira e o mito do "transe"

O ensaísta abre sua análise ancorando-se no episódio da tornozeleira, já distorcido e espetacularizado pela imprensa militante, como símbolo do “descontrole” de Bolsonaro. É uma interpretação conveniente. Em qualquer democracia madura, o debate político não se faz com base em caricaturas fabricadas. Bolsonaro é alvo de um conjunto de decisões monocráticas e excepcionalidades jurídicas nunca vistas contra um ex-presidente. Para João Cezar, isso não importa. O enredo exige um vilão atrapalhado, então ele simplesmente adere à ficção.

As sombras, os porões e as acusações que nunca se materializaram

Nassif recita seu repertório habitual: ditadura, milícias, escritório do crime. São acusações que, apesar de repetidas ad nauseam, nunca renderam condenação ou prova concreta. A análise de João Cezar falha aqui de forma grave: parte de premissas que não são fatos, mas crenças de nicho. E quando a premissa é falsa, qualquer conclusão soa acadêmica, mas é apenas militância mascarada.

O suposto desaparecimento precoce do bolsonarismo

A tese central do ensaísta é a extinção do bolsonarismo. Um olhar rápido para o país desmonta esse argumento:

  • Lula enfrenta queda de popularidade consistente.

  • Bolsonaro, mesmo preso, permanece como o maior opositor político.

  • Governadores e prefeitos ligados à direita avançam.

  • A rejeição ao PT cresce.

  • O governo perde apoio até entre antigos aliados.

Se isso representa "desaparecimento", estamos diante de uma nova física política onde objetos crescem enquanto evaporam.

O “silêncio dos Bolsonaros” e a falsa ausência de liderança

Para João Cezar, Eduardo e Flávio “fugiram”. Mas o que ele chama de fuga, a política chama de estratégia. Silêncio não é covardia; é autocontenção. A direita institucionalizou-se. Prefeitos, deputados, influenciadores, movimentos civis, todos formam um ecossistema próprio. O bolsonarismo, hoje, é movimento social, não fenômeno personalista.

A análise do ensaísta peca por elitismo sociológico: tenta explicar milhões de brasileiros pela conduta de três pessoas.

O patriotismo “esvaziado” e a ilusão das ruas vazias

A esquerda insiste que não houve mobilizações significativas pró-Bolsonaro. Mas omite um detalhe essencial: o governo Lula mobiliza movimentos apenas com dinheiro público, sindicatos e estruturas estatais. A direita, mesmo sob perseguição e medo de retaliação, continua ativa, presente e ruidosa.

A ideia de patriotismo morto é mais desejo do que observação.

A falácia moral de comparar Lula e Bolsonaro

João Cezar insiste em comparar a prisão de Lula à atual prisão de Bolsonaro. É comparação intelectualmente desonesta:

  • Lula foi condenado em três instâncias por corrupção e lavagem de dinheiro;

  • ficou preso porque tinha provas contra si, não porque era perseguido;

  • suas decisões judiciais foram anuladas por foro, não por inocência;

  • Bolsonaro está preso por opinião e interpretação política de suposto “golpe” no qual não estava nem no país.

Chamar um de “digno” e o outro de “poltrão” não é análise: é panfleto.

A vitimização como único risco, e a confissão involuntária

O ponto mais revelador da entrevista surge quando João Cezar admite: só a vitimização de Bolsonaro poderia reascender o movimento.
Aqui, sem querer, ele reconhece o óbvio: Bolsonaro tem enorme capacidade de mobilização.

Querendo ou não, a prisão o transformou no maior símbolo de resistência contra um sistema percebido como injusto. É justamente isso que as pesquisas mostram: a direita amplia sua base e Lula encolhe.

O governo "equilibrado" e o medo do mártir

O ensaísta elogia a “postura discreta” do governo Lula. Na prática, a discrição não é estratégia; é medo. O Planalto sabe que qualquer gesto brusco pode consolidar Bolsonaro como vítima. E não faltam motivos para isso:

  • censura velada em redes sociais;

  • criminalização de críticas;

  • decisões judiciais heterodoxas;

  • perseguição a jornalistas e opositores;

  • prisões e bloqueios seletivos.

O governo teme o backlash, a resposta social, que João Cezar tenta minimizar.

A prisão curta, a domiciliar rápida e o desejo travestido de análise

Prever que Bolsonaro terá prisão “breve ou inexistente” não é futurologia acadêmica: é expressão da esperança de que o caso desapareça sem impacto político. O problema é que o impacto já existe.

Para milhões, a prisão é injusta. Para milhões, há perseguição. Para milhões, existe exceção judicial.

É assim que movimentos crescem, não desaparecem.

O mito do núcleo fanatizado e irrelevante

Talvez o maior erro analítico da entrevista seja reduzir a base bolsonarista a um grupo “fanatizado e irrelevante”. Essa leitura é arrogante e descolada da realidade:

  • são caminhoneiros, professores, militares, empresários, donas de casa, estudantes, evangélicos, católicos, liberais, conservadores;

  • é o voto antipetista, antissistema, anti-impostos e pró-ordem;

  • é o cansaço com a insegurança, a corrupção e a inflação.

Chamar essa massa de "fanática" é confessar que não se a compreende, e, portanto, não se pode analisá-la de forma séria.

João Cezar descreve o Brasil que deseja, não o país que existe

O ensaísta tenta impor uma narrativa de extinção. Mas o país concreto, com gente real, mostra outra coisa:

  • Lula perde 1 milhão de seguidores nas redes;

  • é hostilizado em aeroportos, feiras, igrejas e eventos públicos;

  • sua base se divide;

  • sua popularidade cai;

  • seu governo é percebido como inseguro, lento e desconectado;

  • a rejeição cresce em todas as regiões.

O bolsonarismo não desaparece porque não é moda, é reação.

Conclusão

A entrevista de João Cezar não é análise: é torcida. Não é diagnóstico: é desejo. Não é previsão: é projeção.

O bolsonarismo não está se extinguindo.

Quem está perdendo espaço, e rápido, é a narrativa que tentou decretar sua morte.

Enquanto Lula sofre rejeição crescente, vive um governo que não inspira confiança e enfrenta uma sociedade que não compra suas versões dos fatos, o bolsonarismo continua vivo, ativo e, sobretudo, incompreendido pelos seus adversários.

E se há algo que a história política ensina, é simples: o que não se compreende, não se derrota.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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