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Brasil REVISIONISMO

Cabral não descobriu o Brasil em Porto Seguro? O estudo que desafia 500 anos de história

Pesquisa publicada pela Universidade de Cambridge desafia 500 anos de tradição escolar e aponta São Miguel do Gostoso, no Rio Grande do Norte, como possível ponto real de chegada da esquadra de Cabral ao Brasil

25/11/2025 às 14h55 Atualizada em 25/11/2025 às 14h59
Por: Douglas Ferreira
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Onde afinal Cabral desembargou no Brasil pela primeira vez? - Foto: Reprodução
Onde afinal Cabral desembargou no Brasil pela primeira vez? - Foto: Reprodução

História viva: novo estudo reabre o debate sobre a verdadeira chegada de Cabral

 

A força do revisionismo histórico está justamente em sua coragem: revisar não é negar o passado, mas voltar a ele com melhores instrumentos, novas lentes, métodos atualizados e a humildade de admitir que, às vezes, até acontecimentos considerados imutáveis podem estar errados. O Brasil tem vivido essa onda com intensidade. E se o Piauí já sacudiu a arqueologia mundial ao propor que o povoamento das Américas começou por aqui, na Serra da Capivara, agora é o Rio Grande do Norte que desafia nada menos que o ato fundador do país: o descobrimento do Brasil.

Uma nova pesquisa publicada no Journal of Navigation, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, afirma que a frota de Pedro Álvares Cabral não teria atracado primeiro na Bahia, como aprendemos desde a infância, mas sim na costa potiguar, entre Rio do Fogo e São Miguel do Gostoso. E que o célebre “Monte Pascoal”, avistado pela esquadra, seria na verdade o Monte Serra Verde, em João Câmara.

Isso mesmo: segundo os cálculos dos pesquisadores Carlos Chesman (UFRN) e Carlos Furtado (UFPB), a primeira visão de terra firme dos portugueses pode ter ocorrido centenas de quilômetros ao Norte do que diz o livro didático.

Os pesquisadores: ciência, matemática e a Carta de Caminha

O estudo revisita a Carta de Pero Vaz de Caminha, cruzando seus dados com:

- simulações modernas de ventos e correntes marítimas,

- profundidades oceânicas ao longo da rota,

- medições de campo feitas no litoral potiguar,

- cálculos da navegação da época e das capacidades das caravelas.

O resultado:
a rota mais provável conduz Cabral à costa norte-rio-grandense, não à Bahia.

Segundo os autores, ao partir de Cabo Verde e navegar por 4 mil quilômetros em condições compatíveis com o que se sabe do regime de ventos, a esquadra seria naturalmente arrastada para o litoral potiguar. Ali, o “grande monte, mui alto e redondo” descrito por Caminha coincide com a geografia da Serra Verde, e não com o Monte Pascoal.

A pesquisa ainda sugere que:

- O primeiro desembarque teria ocorrido na praia de Zumbi, em Rio do Fogo.

- O segundo, no dia seguinte, já sob forte ventania, teria sido na região da praia do Marco, localizada nos municípios de São Miguel do Gostoso e Pedra Gran, onde existe um marco português datado de 1501.

Não é uma hipótese nova, mas agora tem força acadêmica internacional

Nos círculos intelectuais potiguares, essa tese não é novidade.
O próprio Luís da Câmara Cascudo - renomado historiador, folclorista e professor brasileiro - já defendia que Cabral teria chegado ao RN.

Mas pela primeira vez o debate ganha:

 + respaldo matemático,

+ modelagem oceânica,

+ revisão documental,

+ publicação em periódico europeu de alto rigor científico,

+ previsão de colóquio oficial da UFRN exclusivo para debater o tema.

O estudo digno de Cambridge colocou a dúvida no centro da mesa, e ela já não pode mais ser ignorada.

E a Bahia? E Porto Seguro? E a versão clássica?

O trabalho do almirante Max Justo Guedes (1975), considerado referência na historiografia naval brasileira, concluiu que o ponto descrito por Caminha era compatível com Porto Seguro. E essa versão pautou livros didáticos, filmes, discursos oficiais, celebrações e identidades regionais.

Mas o novo estudo questiona justamente os parâmetros de navegação utilizados por Guedes, argumentando que os métodos modernos permitem maior precisão na reconstrução da rota.

São Miguel do Gostoso: a “nova” primeira porta de entrada do Brasil?

A ironia é deliciosa: se confirmado, o lugar da “descoberta” do Brasil não seria menos paradisíaco que Porto Seguro.

São Miguel do Gostoso, a 90 km de Natal, já é há décadas um dos destinos mais encantadores do Nordeste: praias extensas, ventos fortes, paisagens cinematográficas e a sensação permanente de que o tempo corre mais devagar.

Se Cabral chegou ali, chegou ao paraíso.

E eu posso dizer: estive lá, e é difícil imaginar nome mais adequado para o lugar onde os europeus teriam visto o Brasil pela primeira vez. Estive mais de uma vez. Quem me apresentou o "pedacinho gostoso" do paraíso foi o advogado Milton Correia. Um piauiense que adotou o Rio Grande do Norte como segunda terra natal. 

E Milton mais do que eu se apaixonou pelo litoral potiguar. E São Miguel do Gostoso é um refúgio constante para ele e a família.

"Revisitar as páginas da história, principalmente à luz dos novos conhecimentos, é mesmo uma obrigação dos estudiosos e pensadores, e de todos nós. É nesse contexto que se inserem as recentes hipóteses sobre o desbravamento do Brasil pelos portugueses, relativamente ao Marco do Descobrimento (na Praia do Marco/RN), antes município de Touros", declara Milton Correia, acrescentando que, "somente o tolo não é capaz de rever suas convicções e conclusões, notadamente quando tais conclusões são fundamentadas em aprofundado estudo, como parece ser o caso".

E por fim, "Não se cuida de mero telurismo potiguar em detrimento do Estado da Bahia. Essas novas hipóteses apenas demonstram, de forma cabal, que a verdade histórica não é estática. Tudo muda, inclusive a história".

Por que isso importa? O peso político do revisionismo

O que está em jogo não é apenas uma disputa geográfica.
É a própria construção simbólica do país.

Se o ponto zero da história oficial muda de lugar:

* muda o discurso escolar,

* mudam identidades regionais,

*mudam rotas turísticas,

* mudam políticas públicas,

* muda a narrativa de origem do Brasil.

E, sobretudo, abre-se a porta para novas revisões, algo que a ciência histórica precisa, e o Brasil adora resistir.

O que vem agora?

A publicação no Journal of Navigation e o próximo colóquio da UFRN garantem que o tema está longe de se encerrar. Historiadores, navegadores, arqueólogos, especialistas em geografia histórica e oceanógrafos deverão se debruçar sobre o estudo.

Talvez nada mude.
Talvez tudo mude.

Mas o mais fascinante é observar a história viva, pulsando, sendo desafiada, e desafiando o próprio país a se reler.

O Brasil, afinal, sempre teve vocação para se reinventar.

E talvez o “descobrimento” não seja exceção.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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