
A cena é surreal, mas tristemente brasileira: um ex-presidente da República, monitorado como um bandido perigoso, acusado de tentar romper a tornozeleira eletrônica - mas sem jamais ter tentado fugir. Jair Bolsonaro admitiu, com a espontaneidade de quem não deve nada além da própria curiosidade: “meti um ferro quente”. E meteu mesmo. Não para escapar, não para desaparecer no mapa, mas porque nenhum inocente suporta, por muito tempo, o símbolo humilhante de um castigo que acredita não merecer.
E aqui está o ponto que boa parte do debate evita: culpados fogem; inocentes se incomodam. O Brasil está repleto de criminosos que rompem tornozeleiras todos os dias e somem na neblina da impunidade - e nem por isso são perseguidos com o furor moral aplicado a Bolsonaro. O ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, condenado a mais de 400 anos, circula livre, leve, solto e sorridente. Collor de Melo? Está aí, em prisão domiciliar, saudável e sem ser incomodado por ninguém.
Mas Bolsonaro? Esse, não. Esse foi escolhido para ser o Cristo ou o Messias de um sacrifício judicial que não se aplica a mais ninguém. Um ex-presidente tratado como propriedade de um sistema que nunca o digeriu: o político “indomável”, o símbolo que não se curva, o cidadão que incomoda mais pela existência do que pelos atos.
A tornozeleira não é um acessório eletrônico. É a metáfora perfeita de uma perseguição política transformada em espetáculo jurídico. Um grilhão contemporâneo, destinado a lembrar diariamente que a liberdade do indivíduo - ainda que inocente - pode ser relativizada conforme a conveniência.
E vamos aos fatos: sim, Bolsonaro danificou o dispositivo. Mas não tentou arrancar, não tentou fugir, não procurou helicóptero, túnel ou passaporte falso. Apenas fez o que qualquer ser humano faria quando se vê “acorrentado” sem aceitar a culpa: tentou aliviar o desconforto.
Fugir da prisão não é crime. Violá-la também não torna ninguém um vilão da pátria. O exagero na reação institucional revela algo maior que o suposto “ato ilícito”: revela o incômodo profundo com a ideia de que Bolsonaro, mesmo sob pressão, continua sendo Bolsonaro - sincero, impulsivo, inquieto e, sobretudo, livre no espírito.
Prendê-lo preventivamente porque passou um ferro quente numa tornozeleira não é justiça; é liturgia de poder. É a consagração de um ritual punitivo que atinge um só homem, enquanto muitos outros, com crimes comprovados, desfilam entre Brasília e o Leblon como se nada de grave houvesse acontecido.
No fim das contas, a pergunta que o Brasil se faz não é sobre a tornozeleira. É sobre o sistema: por que só Bolsonaro?
Por que o mesmo rigor nunca se aplica aos que, de fato, saquearam o país?
Por que o Messias sempre precisa carregar a cruz?
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