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Justiça FRAUDE EM LICITAÇÃO

A prisão que virou espetáculo: por que a ex-prefeita Maria Donária caiu — e tantos outros não?

Caso isolado expõe a seleção “cirúrgica” da justiça brasileira e revela como a maioria dos municípios vive na informalidade criminosa da máquina pública

20/11/2025 às 05h54 Atualizada em 20/11/2025 às 09h09
Por: Douglas Ferreira
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Maria Donária, a ex-prefeita presa por fraudar licitação - Foto: Reprodução
Maria Donária, a ex-prefeita presa por fraudar licitação - Foto: Reprodução

A prisão da ex-prefeita Maria Donária Moura Rodrigues, do pequeno município de Serrano do Maranhão, chamou mais atenção pelo ato da prisão em si do que pelos crimes que a motivaram. Afinal, se fraude em licitação fosse motivo suficiente para prender gestor público no Brasil, faltariam cadeias - e sobrariam algemas. Dos 5.569 municípios brasileiros, poucos escapariam incólumes. A prática é tão comum quanto asfaltos que desaparecem com a primeira chuva.

No caso de Maria Donária, o crime existiu - as investigações mostram manipulação de licitações, benefício a empresas previamente escolhidas e um prejuízo superior a R$ 600 mil ao erário. Mas a pergunta central não é se ela errou. A pergunta é: por que ela caiu, enquanto tantos outros continuam flutuando acima da lei?

A regra do jogo: quem tem Câmara, advogado e benção política não cai

No Brasil, o gestor municipal desonesto só vai para a cadeia se:

  1. Perder o apoio da Câmara Municipal;

  2. Contratar advogado que não conhece “os caminhos das pedras”;

  3. E, principalmente, se não for peça útil no tabuleiro local.

Maria Donária parece não ter preenchido nenhum desses requisitos de proteção. E aí a Justiça funciona - ou, ao menos, aparece.

Porque prisão, nesse caso, tem muito mais cheiro de espetáculo midiático do que de aplicação uniforme da lei.
Se ela tivesse a assessoria jurídica que outros prefeitos têm, dificilmente estaria encarcerada.

O escândalo invisível: enriquecimentos meteóricos e acordos com facções

O mais chocante é que Maria Donária está longe, muito longe, de ser exceção.
Em praticamente todos os Estados - e especialmente no Maranhão, Piauí, Ceará e Pará - prefeitos e prefeitas apresentam sinais externos de riqueza, muitas vezes incompatíveis com os salários que recebem. Casas, fazendas, empresas, carros de luxo… tudo surge “da noite para o dia”, e todo mundo finge que não vê.

E há ainda um novo e perigoso capítulo: prefeitos contratando com o crime organizado, de maneira direta, explícita e documentada.
Casos públicos já foram registrados no Maranhão e no Ceará.
E quem foi preso? Ninguém. Nenhuma surpresa.

Por que uns são presos e outros não?

A prisão de ex-gestores no Brasil segue uma lógica simples:
cai quem está fora do jogo político, não quem rouba mais.

Maria Donária estava:

  • fora do cargo;

  • longe do Maranhão;

  • sem alianças fortes;

  • e sem blindagem institucional.

Ou seja: presa fácil.

Enquanto isso, gestores com atuação atual, influência e acordos políticos seguem “livres, leves e soltos”, mesmo cometendo crimes muito mais graves, muito mais danosos e muito mais estruturados.

Justiça que funciona por amostragem

O problema não é que Maria Donária tenha sido presa.
O problema é que só ela foi.

Numa máquina pública em que a fraude em licitação é regra - não exceção - a punição isolada vira quase uma injustiça.
É a velha lógica brasileira: punir um para dar a impressão de que a lei vale para todos.

Mas não vale. Não ainda.
Não enquanto prefeitos transformarem o orçamento municipal em balcão de negócios, contratos em mercadoria e licitações em teatro.

E não enquanto a Justiça seguir escolhendo cuidadosamente quem cai - e quem é mantido em pé.

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A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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