
Diz-se que o Rei Midas transformava tudo em ouro porque, movido pela ganância, pediu ao deus Dionísio o poder de converter em metal precioso tudo o que tocasse. O mito, claro, nasceu para ensinar: cuidado com o que deseja. E Midas aprendeu da forma mais trágica, descobriu que poder demais é igual a liberdade de menos. Não podia comer, não podia abraçar a filha, não podia viver. Tudo virava ouro, e ouro demais vira maldição.
Já o presidente Lula da Silva parece operar o efeito Midas às avessas: tudo o que toca não vira ouro, vira desconfiança, suspeita, contrato polêmico, parceria vantajosa demais ou escândalo com cheiro de déjà-vu. É quase uma habilidade mitológica: começa como promessa, termina em manchete duvidosa. E olha que isso não é novo na biografia política do petista. Desde o mensalão até o petrolão, passando por delações e Lava Jato, o lulismo escreveu capítulos históricos no grande livro da contabilidade criativa da República.
Pois bem: chegamos à COP30, o palco internacional perfeito para mostrar ao mundo que o Brasil está comprometido com o futuro do planeta. Mas parece que, antes de salvar o clima, o governo resolveu salvar outra tradição nacional: a de transformar grandes eventos em grandes oportunidades, para alguns. E como seria impossível realizar uma conferência global sem uma pitada de polêmica, surge ela: a Organização dos Estados Ibero-Americanas - OEI, organização internacional que encontrou no Brasil um campo fértil para contratos milionários sem precisar disputar concorrência.
A mesma OEI, veja você, que já ofereceu um confortável cargo internacional à primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja. Um convite gentil, elegante, simpático, quase protocolar. Nada demais, dirá o governo. Apenas um gesto cordial entre amigos diplomáticos. Mas é claro que, em Brasília, cordialidade demais sempre acende um alerta. Especialmente quando quem estende a mão é quem recebe meio bilhão de reais em contratos.
Sim, meio bilhão. A OEI acumula uma bolada impressionante em contratos firmados desde o início do governo Lula, só para a COP30, os valores se aproximam dos R$ 500 milhões. E agora soma mais R$ 27,9 milhões da EBC para transmissões audiovisuais. Tudo amparado pela lei, tudo dentro das regras, tudo com carimbo de dispensa de licitação. A legislação permite. O bom senso, às vezes, não.
O curioso é que todos os envolvidos parecem viver em uma realidade paralela onde coincidências abundam como árvores na Amazônia. A OEI nega favorecimento. A EBC nega favorecimento. O governo nega favorecimento. É um coral de negações tão afinado que faria inveja ao coral do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Mas negar não basta para desfazer a sensação de que há sempre uma névoa pairando sobre essas contratações.
Essa névoa, inclusive, não cai do céu. Cai da memória do país. O Brasil já viu esse enredo, já assistiu a essa peça teatral, já conhece o truque. Primeiro vêm as justificativas técnicas. Depois, as notas oficiais. Em seguida, as reportagens investigativas. E, quando a coisa aperta, entra em cena o velho bordão: “tudo dentro da legalidade”. É o mantra eterno das crises brasileiras, e geralmente é nesse momento que o público começa a desconfiar que talvez o problema seja justamente a legalidade flexível demais.
Enquanto isso, a COP30 segue sendo vendida como o grande espetáculo ambiental da era Lula. E talvez até seja. Mas o que se vê nos bastidores parece menos sustentável: contratos gordos, organismos internacionais atuando como empresas terceirizadas de luxo, aditivos milionários que aparecem como coelhos saindo da cartola. Se isso fosse uma peça mitológica, Dédalo já estaria avisando: cuidado com o labirinto.
A verdade é que, se Midas estivesse vivo, ficaria impressionado. Não com a capacidade de transformar tudo em ouro, mas com o talento do governo brasileiro de transformar tudo em suspeita. Um contrato, uma pauta, um evento: basta tocar. Não brilha, fumaça. Não reluz, duvida. Não se fortalece, desgasta. É o milagre às avessas.
Resta ao país a pergunta que nem Dionísio ousaria responder: até quando o governo Lula continuará repetindo esse toque maldito que transforma eventos grandiosos em narrativas embaraçosas? E mais importante: haverá algum momento em que o Brasil conseguirá organizar algo, qualquer coisa, sem que o cheiro de escândalo anteceda a chegada oficial do press release?
Por enquanto, a história segue escrita. E como toda boa mitologia, ela pode até ensinar lições preciosas, mas, ao custo atual, talvez ficasse mais barato contratar Dionísio direto na Grécia do que continuar apostando nesse Midas brasileiro que transforma mais em crise do que em ouro.
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