
O secretário de Segurança Pública do Piauí, Chico Lucas, reagiu com dureza às críticas do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, sobre o Projeto de Lei Antifacção e a PEC da Segurança. Mas, ao tentar desqualificar o debate dizendo que Caiado estaria “politizando um tema sério”, o próprio secretário escorrega para o mesmo terreno que acusa o adversário de pisar.
E aqui está o ponto central: não existe possibilidade alguma de enfrentar o crime organizado no Brasil sem politizar o tema.
Politizar, no sentido republicano, é discutir, ouvir, confrontar ideias, tensionar perspectivas, testar propostas e ajustar o que for necessário. O que não se pode fazer é partidarizar. E são justamente esses debates incômodos que Chico Lucas tenta empurrar para baixo do tapete.
O avanço das facções deixou de ser uma preocupação apenas de segurança e tornou-se o eixo que hoje organiza a política nacional, influenciando governabilidade, relações federativas, orçamento, controle territorial, sistemas prisionais, tráfico de armas e estabilidade institucional.
As facções já estão dentro das cidades, das instituições, das fronteiras e das redes digitais. Fingir que esse problema pode ser tratado como um expediente técnico ignorando a dimensão política é ingenuidade ou conveniência.
Nenhum tema no Brasil hoje supera o combate à faccionização do território nacional. Nenhum.
A fala de Chico Lucas esbarra num paradoxo evidente: reforça que o PL Antifacção e a PEC são “técnicos e bem construídos”, mas despreza justamente quem tem experiência concreta para avaliar se o projeto funciona ou não na vida real: os governadores que enfrentam o crime organizado diariamente.
E nesse ponto não importa se o governador é de direita, esquerda ou centro.
O que interessa é o case, é o resultado, é o impacto direto sobre o combate às facções.
Ronaldo Caiado, goste-se dele ou não, tem um dos modelos mais bem-sucedidos de enfrentamento ao crime organizado no país. Os números, a queda dos assassinatos e a reorganização da segurança pública goiana são dados concretos.
Ignorar suas críticas não é só um erro político, é um erro técnico.
Se Caiado representa o exemplo da contenção, Elmano de Freitas, do Ceará, representa exatamente o oposto:
– Por que o estado mais afetado pelo domínio faccional não consegue reagir?
– Por que o crime organizado se enraizou tanto?
– O que deu errado?
Ninguém está mais habilitado a responder do que o governador cearense. Excluí-lo do debate é amputar o diagnóstico.
O Piauí vive uma ascensão de facções, embora ainda distante do quadro dramático do Ceará. Por isso mesmo, é um estado que pode contribuir mostrando o que funciona, o que falha e o que precisa ser aperfeiçoado antes que seja tarde.
Ao dedicar mais energia a criticar Caiado do que a aprimorar o debate, Chico Lucas incorre no mesmo vício que condena: politiza ao negar a política.
O secretário afirma que o governador de Goiás cria um palanque. Mas não percebe que, ao rejeitar contrapontos, cria ele próprio um palanque ao avesso — o da blindagem ideológica.
A alegação de que o Brasil não deveria discutir o enquadramento das facções como terrorismo porque isso seria incoerente ou inviável é tão frágil quanto apressada. Não se trata de concordar ou discordar da tese, trata-se de debatê-la seriamente.
Silenciar a discussão não é solução:
é comodidade política travestida de tecnicismo.
Nenhum projeto de lei sério nasce de consenso apressado. Leis nascem do conflito, da divergência, do teste, da crítica.
O que Chico Lucas chama de “coerência e serenidade” pode muito bem ser lido como conformismo burocrático e medo do contraditório.
Se o governo federal quer aprovar um PL realmente eficaz, precisa expor suas propostas ao debate público, ouvir todos os atores e, principalmente, trazer para a mesa:
– os que venceram as facções,
– os que perderam para elas,
– e os que estão no meio do caminho.
Só assim haverá um modelo que funcione nacionalmente.
É tentador para governos de qualquer partido buscar unanimidade técnica para evitar desgastes políticos.
Mas quando o inimigo é o crime organizado, a unanimidade é um luxo perigoso.
O Brasil precisa discutir, tensionar, discordar, confrontar.
Precisa ouvir Caiado, Elmano, Rafael Fonteles, e todos os demais.
Porque, neste momento, politizar a segurança pública não é um risco: é uma necessidade institucional.
E o silêncio, não o debate, é o que mais interessa às facções.
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