
A morte repentina de caprinos, ovinos e bovinos no Piauí e em outros estados do Nordeste reacendeu um alerta nacional. O que começou como um mistério, animais morrendo em menos de 72 horas, com inchaço e perda de apetite, virou uma das maiores crises sanitárias recentes da pecuária brasileira. Após meses de investigação, veio a confirmação: dois lotes da vacina Excell 10 foram produzidos com bactérias ativas, aplicando nos animais a própria doença que deveria ser combatida. O fabricante, Dechra Brasil, reconheceu oficialmente a falha no processo de inativação e suspendeu temporariamente sua produção no país.
O problema não ficou restrito a uma região. Registros de mortes se multiplicaram no Piauí, Ceará, Maranhão, Rio Grande do Norte e Pernambuco, além de casos em São Paulo. No campo, o impacto foi devastador: produtores viram rebanhos inteiros adoecerem em poucas horas, sem resposta a tratamentos. Laboratórios das universidades federais e institutos de pesquisa foram mobilizados, enquanto veterinários realizavam necropsias na tentativa de explicar a situação. Ao mesmo tempo, o Ministério da Agricultura determinou o recolhimento dos lotes 016/2024 e 018/2024, mas ainda não apresentou um posicionamento definitivo sobre como a vacina foi aprovada sem detectar a falha.
A dimensão da tragédia só aumentou com o tempo. Dados atualizados do Ministério da Agricultura elevaram para 612 o número de mortes em investigação, e novas notificações continuam chegando por meio do sistema e-Sisbravet. A falha levantou questionamentos sérios sobre fiscalização, segurança biológica e controle de qualidade. Como lotes com patógenos ativos passaram por todos os processos sem serem barrados? Por que o Mapa permaneceu em silêncio mesmo após sucessivos pedidos de esclarecimento? Até agora, essas perguntas seguem sem resposta.
Apesar do impacto, autoridades reforçam que os produtores não devem abandonar o calendário de vacinação, já que a clostridiose é uma doença altamente letal e há imunizantes seguros no mercado. A Dechra promete indenizar os criadores e corrigir seus processos internos. Enquanto isso, o caso Excell 10 se transforma num alerta nacional: quando falha a linha de defesa sanitária, quem paga a conta é o produtor e agora, centenas de animais mortos revelam o tamanho dessa vulnerabilidade.
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