
Sem consenso, sem rumo e — talvez — sem pudor: os movimentos de Hugo Motta no tabuleiro do poder
Quando falta acordo, sobra esperteza. Ou oportunismo. Ou vaidade. Ou tudo junto — e misturado. Eis Hugo Motta, presidente da Câmara, transformando a votação do PL Antifacção num espetáculo político que mistura improviso, cálculo e, claro, aquela pitada de caos que Brasília tanto aprecia.
Ele escolhe como relator um adversário declarado do governo. Depois atravessa a Praça dos Três Poderes para “ter com” Alexandre de Moraes no STF — porque nada diz “independência institucional” como pedir bênção de toga. E agora empurra para votação um projeto polêmico, complexo, sensível e explosivo... sem consenso, sem maturação política, sem base sólida. Apenas com pressa. A pergunta se impõe: pressa pra quê? E pra quem?
A atitude parece, no mínimo, contraditória. No máximo, ensaiada. Hugo Motta, que deveria ser maestro, pinta-se como pirotécnico. Por quê?
Para marcar território perante o governo?
Para mandar recado à oposição?
Para mostrar musculatura às corporações?
Ou simplesmente porque na Brasília de 2025 a lógica é o improviso permanente?
Nada é por acaso no Congresso. E o improviso, quando cuidadosamente encenado, costuma esconder algo maior. Motta parece gostar de ser o árbitro das tensões — mas também o protagonista. Um estilo meio kamikaze, meio bombeiro… conforme sopra o vento.
O relator Guilherme Derrite tentou dar um “presente” aos governadores: a PF só atuaria com autorização formal dos estados. A Polícia Federal, óbvio, reagiu. Com nota dura. Sem firulas. A proposta, segundo a PF, comprometia o interesse público e enfraquecia investigações de grande porte.
Derrite recuou. Motta recuou junto. Mas recuo, em Brasília, nunca é total — sempre é calibrado. E o governo, especialmente o PT, não comprou o “meio-termo”. Lindbergh classificou o texto como uma tentativa de “domesticar a PF”.
Domesticar a PF. Eis uma frase que dói nos ouvidos e que revela o ponto central da crise: quem manda na Polícia Federal?
O Executivo acha que deve ser o Estado. A oposição acha que o Estado, mas não esse governo. Os governadores querem ter voz. E a PF não quer ser subalterna de ninguém. Resultado? Batalha institucional cotidianamente reaberta — e explorada.
A oposição queria equiparar facções a terroristas. O mercado gritou antes do governo: “Não façam isso”. Não porque se preocupem com segurança pública, mas porque lei de terrorismo assusta capital. Fundos internacionais fogem mais rápido que faccionados em dia de operação.
Motta ouviu. Derrite acatou. A classificação não entrou no texto.
Mas entrou algo quase igual: penas equivalentes às de terrorismo.
Não chama de terrorista, mas pune como tal. O famoso “parece, mas não é”. Mais um aceno ao conservadorismo penal — sem o custo jurídico de mexer na Lei Antiterrorismo.
Eis o núcleo da provocação:
Hugo Motta quer mostrar força?
Quer comandar as tensões entre governo, PF e governadores?
Quer ser referência do centrão?
Quer blindar aliados estratégicos?
Ou quer apenas garantir que todos dependam dele?
Brasília funciona assim: quando todos discordam, alguém fica mais forte. Geralmente quem controla a pauta.
E quem controla a pauta — hoje — é Hugo Motta.
O PL Antifacção virou um laboratório de conflitos:
governo X oposição
governo federal X governadores
PF X políticos
mercado X narrativas públicas
e, acima de todos, Hugo Motta X todos eles
A votação desta terça-feira promete mais faísca do que luz. O texto está longe de consensual. Os embates prometem. A insegurança jurídica paira. E o Brasil, claro, assiste ao espetáculo.
A pergunta que não cala:
Hugo Motta quer aprovar um projeto ou quer ser o protagonista de um enredo?
Porque, até agora, parece mais interessado nas câmeras do que na coerência.
E, convenhamos, o Brasil já tem facções demais para lidar. Falta é liderança sólida — não pirotecnia.
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