
Figurões do mercado e o PL Antifacção: que medo é esse?
A notícia divulgada pelo Metrópoles de que “figurões” do mercado financeiro teriam procurado o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o relator do projeto antifacção, Guilherme Derrite, para alertar sobre os riscos de classificar facções criminosas como grupos terroristas, causa, no mínimo, perplexidade. Medo de quê? Receio de quem? Preocupação com o quê? E, principalmente, por quê?
A narrativa soa estranha desde o início. Que “figurões” são esses? Por que não se diz o nome, o setor, a função, a posição? Por que tamanha discrição? Quando o assunto envolve o país ser supostamente prejudicado por uma classificação jurídica — que nada muda na prática criminosa, apenas reconhece o óbvio — seria natural que os tais “preocupados” tivessem a coragem de falar às claras. Mas não. Preferiram o anonimato. Ou seja, opinam sobre o destino do Estado brasileiro sem assumir publicamente a autoria da opinião.
Segundo a matéria, o medo seria “mercadológico”: fundos e multinacionais teriam em seus estatutos cláusulas que impedem investimentos em países que “abrigam terroristas”. A frase em si é reveladora. O Brasil, segundo esta lógica, passaria a “abrigar terroristas” caso reconhecesse que facções criminosas atuam como... terroristas. Perceba o absurdo: o problema não é a prática criminosa. O problema é o nome dado à prática.
É como esconder um cadáver tirando a palavra “cadáver” do dicionário. Será que funciona?
E aqui mora a maior contradição: os atos praticados por facções — execuções, esquartejamentos, domínio territorial, imposição de regras, coerção à população, sequestro, corrupção policial, ataque organizado contra o Estado — não são atos terroristas? Não produzem medo generalizado? Não subjugam comunidades? Não desafiam a soberania estatal?
O argumento soa infantil, quase cínico. Ou pior: conveniente.
Quando parte do mercado se preocupa mais com o rótulo do crime do que com o crime em si, abre-se um flanco perigoso. Tão perigoso que se torna inevitável uma pergunta: quem ganha com a não classificação? A quem interessa suavizar a nomenclatura? Por que “terroristas” assusta o mercado, mas “facções” não?
Será que parte do mercado — e aqui falamos de parte, nunca de todo — convive bem com a presença do crime organizado? Será que alguns setores consideram aceitável a existência de zonas dominadas, controle paralelo e lavagem de dinheiro que circula silenciosamente no interior de sistemas econômicos?
Pode parecer exagero. Mas quando os tais figurões, pressionando deputados da Câmara, alertam sobre “risco ao rating”, “fuga de capital” e “perda de confiança”, a perplexidade aumenta. Como assim? O Brasil já não sofre com esses fenômenos justamente pela insegurança pública crônica? Pela falta de controle estatal? Por facções que atuam livremente?
A ironia final é brutal: os figurões que tentaram fazer um alerta podem ter provocado o efeito contrário. Um alerta ainda maior. E não apenas sobre os riscos de classificar facções como terroristas — mas sobre os riscos de acreditar que o mercado está sempre do lado da sociedade.
Às vezes, o mercado fala. Às vezes, cochicha. E às vezes, silencia — principalmente quando a transparência pode incomodar.
Uma coisa, porém, é certa: o cidadão comum, que paga imposto, sofre com a violência e vive sob o jugo de facções que controlam bairros inteiros, começa a se perguntar quem é que realmente governa o Brasil.
E essa pergunta, à luz dos fatos, não é só pertinente. É necessária. Urgente. E inevitável.
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