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Agro SERRA DA IBIAPABA

Ousadia Verde: Ceará desafia o impossível e mira a primeira produção nacional de pistache

Produtores da Serra da Ibiapaba apostam em pesquisa, inovação e coragem para adaptar uma cultura inédita no Brasil — e romper a dependência de importações

10/11/2025 às 12h20
Por: Douglas Ferreira
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Os produtores cearenses vão empreender o primeiro cultivo em grande escala no Brasil - Foto: Reprodução
Os produtores cearenses vão empreender o primeiro cultivo em grande escala no Brasil - Foto: Reprodução

O Brasil importa praticamente 100 % do pistache que consome — fruto caro, sofisticado, ingrediente de luxo — mas agora tem em mãos uma oportunidade rara: produtores da Serra da Ibiapaba, no Ceará, apostam em tornar o Estado o primeiro em larga escala a cultivar pistache no país. O sonho é audacioso, o valor comercial significativo — e o desafio colossal.

Na teoria, a região serrana aparece como palco ideal: clima mais ameno que o restante do Ceará, altitude superior, condições mais próximas de climas temperados. Mas a planta do pistache vem de regiões áridas e de estações definidas — exige frio, repouso vegetativo, latência. Traduzindo: é preciso “tropicalizar” o pistache para que ele sobreviva — e floresça — no Brasil.

Os produtores da região não recuaram. Em parceria com a Embrapa e a Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), já se organiza a importação de material genético, estudos de solo, clima, modelos de adaptação. Há moção, entusiasmo, até certa urgência — afinal, quem planta hoje o pioneirismo colhe amanhã os dividendos.

Mas será tão simples? A resposta: não. O primeiro obstáculo já se apresenta — o frio. A planta exige cerca de 60 dias com temperatura abaixo de 10 °C, condição praticamente inexistente nas regiões tropicais brasileiras. Em plena era da tecnologia, adaptar uma espécie tão exigente ao sertão nordestino exige mais que boa vontade: exige recursos, pesquisa, paciência, risco.

E é aí que está o mérito dessa iniciativa — porque avançar na frente não é fácil. Em meio a uma economia agro que ainda privilegia culturas tradicionais, há coragem em dizer “vamos plantar pistache”. Esse atrevimento rompe o ciclo da dependência de importações, cria nova vocação regional e, se bem-sucedido, transforma valor agregado, empregos locais, inovação. É uma aposta de futuro.

O pistache vem ganhando cada vez mais espaço na culinária nacional, sobretudo, em doces e sorvetes - Foto: Reprodução

Entretanto, é preciso alertar para o risco de “hype corporativo” — muito discurso, pouco resultado. Já se fala em colheitas entre 2035 e 2040. Ou seja: a promessa é distante. E em agronegócio, tempo é dinheiro — e risco. Temos de celebrar a iniciativa, mas acompanhar a execução.

Outra questão: quem vai bancar isso? Investimentos, adaptação, tecnologia, logística, mercado. Esse pistache nacional vai concorrer com importados que já têm escala, maturidade, infraestrutura. Será preciso cadeia de comercialização, certificação, processamento. A Serra da Ibiapaba tem potencial — mas ainda não tem glórias.

E mais: a iniciativa não pode ignorar a sustentabilidade. Plantar algo exótico em bioma vulnerável, com exigência hídrica ou de insumos, pode gerar impactos. O desafio é duplo: adaptar planta + adaptar modelo agroindustrial + garantir que ambiente, sociedade e economia regionais se beneficiem.

Por fim, cabe reconhecer o protagonismo dos cearenses que ousam. Em vez de esperar que “alguém” traga o futuro, decidiram plantar o futuro. E essa é a narrativa que vale: produzir inovação onde muitos veem apenas solo árido. Se der certo — e devemos torcer para que dê — o Brasil poderá, enfim, deixar de importar pistache e ganhar uma nova cultura de elite em solo nacional.

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