
Na última semana, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) voltaram ao centro do debate político e social. Das rodas de bar aos plenários, das conversas de rua aos noticiários, não se falou em outra coisa. As megaoperações no Rio de Janeiro e as ações coordenadas dessas facções em diversos Estados — inclusive no Piauí — escancararam uma verdade inconveniente: o crime organizado já não teme o Estado; é o Estado que parece temê-lo.
Tanto o CV quanto o PCC nasceram no ventre apodrecido do sistema prisional brasileiro. O primeiro, no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, na década de 1970; o segundo, no Anexo de Taubaté, em São Paulo, em 1993. Em comum, o mesmo terreno fértil: celas superlotadas, ausência do Estado, tortura e miséria. Foi nesse ambiente que a “união dos presos” virou uma organização militar, econômica e política.
O CV nasceu da convivência entre presos comuns e militantes de esquerda encarcerados pela ditadura militar. Os ideais de solidariedade entre os presos deram origem a uma aliança de sobrevivência. Mas, logo, o discurso político deu lugar ao negócio lucrativo do tráfico. A facção cresceu, tomou o morro e criou uma estética própria — do funk proibidão à ostentação armada. O CV virou uma marca, com código, gíria e território.
Enquanto isso, o PCC — fundado por Marcola e outros detentos em Taubaté — nasceu com outra proposta: organização, disciplina e negócios. Com estatuto próprio e estrutura hierárquica, o “Partido” (como os integrantes o chamam) se profissionalizou. Enquanto o CV impunha o medo pelo fuzil, o PCC preferiu a lógica do lucro e da infiltração. Resultado: virou um conglomerado criminoso que opera como multinacional do crime.
O CV é emocional, violento, bélico. O PCC é racional, estratégico, silencioso. Enquanto o primeiro se espalha pelo grito e pela guerra, o segundo cresce pelo sigilo e pela negociação. O CV quer domínio territorial. O PCC quer poder econômico e influência política. No fim das contas, um faz barulho; o outro faz dinheiro.
De 1980 a 2025, o crime organizado saiu dos presídios para o asfalto, do morro para o gabinete, e da “biqueira” para o sistema financeiro. Hoje, as facções movimentam bilhões, influenciam eleições locais e até interferem em políticas públicas. Há prefeitos, vereadores, empresários e até policiais sob o comando invisível de quem usa bermuda e chinelo.
A cada operação policial — como a que ocorreu simultâneamente no Alemão e na Penha — o Estado tenta mostrar força. Mas a verdade é outra: cada incursão revela o tamanho do abismo entre governo e realidade. O poder bélico das facções é comparável ao de grupos paramilitares. E, pior, a sensação de impunidade é o combustível que mantém o crime de pé.
Hoje, nas praças, nos becos, nos transportes e nas redes sociais, o medo é cotidiano. A população se acostumou a viver sob o domínio de quem impõe a lei da bala. As facções criaram um Estado paralelo, que cobra “imposto”, dita regras, pune e protege. O problema? Fazem tudo isso com mais eficiência que o Estado oficial.
O dinheiro do tráfico não dorme. Ele se mistura ao capital “limpo”, financia obras, empreendimentos e até campanhas políticas. O PCC atua em lavagem de dinheiro com a frieza de um banco suíço, enquanto o CV mantém o controle do varejo da droga, com o glamour das favelas cariocas. O que era criminal virou “negócio de família”.
Há quem tema, há quem se beneficie. O silêncio da política é ensurdecedor. O crime organizado tem seu lobby, sua influência e seus acordos de conveniência. Nenhum governo quer mexer no vespeiro, e o resultado é o mesmo: as facções crescem, se renovam e se fortalecem — enquanto o cidadão comum é quem paga o preço.
Enfrentar o crime exige vontade política, inteligência policial e coragem institucional. Não basta trocar tiros nas favelas. É preciso cortar o fluxo de dinheiro, combater a corrupção e reestruturar o sistema prisional. Mas, convenhamos, é mais fácil discursar sobre “inclusão social” do que desmontar um império que se retroalimenta da própria omissão estatal.
Hoje, o Comando Vermelho e o PCC são dois lados da mesma moeda: uma moeda suja, manchada de sangue e poder. E o Estado brasileiro, ao que tudo indica, virou refém da sua própria incompetência. Enquanto o governo finge que comanda, os verdadeiros comandantes já deram as ordens — e o resto do país apenas obedece.
No balanço final, o CV é a explosão. O PCC, a infiltração. E o Brasil, o território ocupado.
LAVAGEM DE DINHEIRO PT aposta no esquecimento para enfrentar novo escândalo envolvendo vereador preso
NAS MÃOS DOS COIOTES Fugindo do “inferno”: por que milhares de cubanos agora escolhem o Brasil para recomeçar a vida?
DE QUEM É A CULPA? Optando pelo que não presta? Mín. 23° Máx. 32°