
De tudo o que se escreveu sobre o “ato falho” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Jacarta, na Indonésia, uma análise se destacou pela clareza e ironia precisa: o artigo do jornalista Ricardo Kertzman, que batizou o episódio de “Meu traficante, Minha vítima”. Com humor cortante e lucidez rara, Kertzman traduziu o sentimento de indignação nacional diante da fala do presidente — “os traficantes são vítimas dos usuários” — proferida em um dos países com a legislação antidrogas mais severa do planeta, onde o tráfico é punido com a morte.
Mas o que levou Lula a defender, ainda que indiretamente, os traficantes? Foi um vacilo? Um ato falho? Ou simplesmente aquilo que ele realmente pensa e sempre defendeu? As dúvidas tomaram conta do debate público, dividindo até aliados. Houve quem dissesse que Lula quis “filosofar” sobre o tema. Outros, mais céticos, afirmam que o presidente apenas disse o que o PT e parte da esquerda brasileira sempre pensaram — que o criminoso é produto da desigualdade social e, portanto, uma “vítima do sistema”.
O problema é que a frase não caiu no vácuo. Foi dita em Jacarta, um país onde dois brasileiros já foram executados por tráfico e um terceiro corre risco de fuzilamento. Soou como uma provocação insensata, uma afronta à memória das vítimas do narcotráfico e uma demonstração de desconexão com a realidade. Em tempos de diplomacia digital, em que cada palavra é amplificada em segundos, Lula conseguiu manchar a imagem do Brasil no exterior e reacender, internamente, a discussão sobre sua visão distorcida de justiça.
Kertzman, com sua verve habitual, foi direto ao ponto: “O potencial destruidor do sincericídio é tamanho que já refletirá nas próximas pesquisas de opinião.” E há motivos para acreditar nisso. A fala tocou num tema sensível — a segurança pública e o avanço das facções criminosas — exatamente num momento em que o país sofre com explosões de violência, tráfico e domínio territorial de organizações como o PCC e o Comando Vermelho.
A comparação com Dilma Rousseff é inevitável, mas injusta. Dilma podia ser confusa, incoerente, até folclórica, mas nunca defendeu traficantes. Lula, ao contrário, relativizou o crime e inverteu os papéis: o bandido virou vítima, o usuário virou vilão. Essa inversão, típica do discurso ideológico da esquerda, ignora o sofrimento das famílias dilaceradas pelo vício, os milhares de mortos nas guerras do tráfico e a juventude destruída pela droga e pela criminalidade.
A história não mente. Desde os tempos de sindicalista, Lula e o PT flertam com a narrativa de que “a sociedade é culpada pelo crime”. Para eles, o criminoso é apenas o reflexo da exclusão — nunca o responsável pelo mal que causa. É por isso que defendem “saídas humanitárias” para quem mata, estupra ou trafica. E é por isso que, no Brasil, o crime compensa.
Kertzman acerta ao dizer que “enquanto critica democracias, Lula adula ditaduras; enquanto condena a polícia, clama por direitos humanos a criminosos.” Essa contradição virou marca registrada do lulismo. Não é erro, é método. É o discurso conveniente de quem se alimenta da culpa coletiva para perpetuar um projeto de poder travestido de compaixão.
A fala na Indonésia foi mais do que uma gafe diplomática — foi um espelho da mentalidade de um governo que vê o criminoso como coitadinho e o policial como opressor. O resultado disso está nas ruas: aumento da violência, enfraquecimento das forças de segurança e fortalecimento das facções.
Em 2026, como prevê o próprio Kertzman, o episódio voltará à cena eleitoral. A oposição certamente usará a fala para mostrar ao eleitor quem é o verdadeiro Lula: o homem que defende ditadores, ataca democracias e agora vitimiza traficantes. E, conhecendo o histórico petista, não será surpresa se o governo tentar censurar vídeos, matérias e críticas, alegando “desinformação”, como fez em 2022.
O “sincericídio” de Lula é devastador porque não foi um deslize — foi uma confissão. Ele disse o que realmente pensa. E pensar que o traficante é vítima, num país assolado por drogas, mortes e violência, é a prova de que o presidente perdeu a noção da realidade.
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