
Piauí: 203 anos de história, avanços limitados e desigualdade escancarada
Neste 19 de outubro de 2025, o Piauí completa 203 anos. É aniversário, mas não é festa para todos. Enquanto bandeirolas tremulam e solenidades são realizadas, metade da população sobrevive de programas sociais. O Estado, rico em história e recursos naturais, continua pobre para quem realmente trabalha e rico apenas para quem domina o poder político e econômico.
O Piauí nasceu da colonização portuguesa no século XVII, pela pecuária e pelos bandeirantes. Povoados como Mocha, depois Oeiras, surgiram em meio ao sertão, secas e dificuldades. Criado oficialmente em 1718 como Capitania de São José do Piauí, o território aderiu à Independência em 1822 e se tornou Estado em 1889. História e resistência não faltam. Mas progresso real? Ah, isso ainda é artigo de luxo.
Sim, houve avanços. O IDH subiu de 0,480 para 0,710, escolas técnicas e de tempo integral se expandiram, e programas de infraestrutura tentam minimizar a falta de saneamento e água. Conquistas concretas, mas limitadas. Poderiam ser enormes se não fosse a mistura de corrupção crônica e políticas públicas que fingem proteger os pobres, mas que, na prática, privilegiam sempre a elite do momento.
O que o povo do Piauí sente, porém, é outra realidade: hospitais sucateados, escolas sem estrutura, cidades com violência crescente e desemprego alto. Programas sociais que deveriam libertar, aprisionam. Metade da força produtiva depende do Bolsa Família e de auxílios variados. É uma dependência oficializada, uma espécie de “liberdade com coleira”. Enquanto isso, a elite se serve do Estado e enriquece sem esforço, como se os 203 anos fossem um título de nobreza hereditária.
A água, por exemplo, continua sendo luxo em muitas cidades do sul. Em Gilbués, o povo voltou ao século passado carregando lata d’água na cabeça. A seca castiga, mas a incompetência política agrava. Festejam-se inaugurações e shows, mas não se comemora o direito básico de viver com dignidade.
Em pouco mais de dois séculos, o Piauí até conquistou abertura para o mar, com um litoral de apenas 66 quilômetros, o menor do Brasil. Mas mais de cem anos se passaram e o sonho de um porto marítimo continua no papel. Navios passam, a expectativa cresce, e o povo apenas observa. A navegabilidade do rio Parnaíba, sonho acalentado pelo saudoso Alberto Tavares e Silva, morreu junto com a Barca do Sal em bancos de arreia do Velho Monge assoreado. Os tempos mudaram, os sonhos também, mas a realidade segue cruel: água para transportar riqueza continua a faltar.
Hoje, o governo não vende apenas a ideia do Porto Piauí, mas também a promessa do hidrogênio verde. Ambos, porém, amarelaram diante da incompetência e da inércia. O porto já consumiu mais de meio bilhão de reais e não passou de um entreposto pesqueiro inoperante. O hidrogênio verde parece que ficou só no papel e nas apresentações. Enquanto isso, o povo piauiense segue olhando para o horizonte, esperando que algum dia seus sonhos de desenvolvimento real deixem de ser promessas vazias.
Então, o que realmente comemorar? Comemoramos a resistência do povo, que persiste mesmo com políticas que aprisionam, corrupção que privilegia a elite e abandono histórico. Comemoramos pequenos avanços em educação e infraestrutura, que mostram que o Piauí pode ser melhor — mas que ainda estão longe de alcançar todos.
Que este aniversário seja um tapa na cara de quem governa e de quem assiste passivamente. Que os 203 anos sirvam para exigir: um Piauí rico para todos, onde programas sociais libertem e não aprisionem, onde corrupção seja combatida e oportunidades se espalhem, e onde a mesa cheia não seja exceção, mas regra. Porque bandeirolas e shows são bonitos, mas não enchem barriga vazia.
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