
Envelhecer num país com tantas contradições como o Brasil é, sem dúvida, um privilégio — quase um ato de resistência. Num território onde a violência é rotina, sentar na calçada pode significar uma sentença de morte. E o idoso, que deveria ser símbolo de sabedoria e respeito, tornou-se alvo de abandono, descuido e desprezo — muitas vezes dentro da própria casa.
Quantos pais doentes são expulsos por filhos desumanos? Quantas mães, em luta contra enfermidades, são deixadas com a dor e o silêncio como companhia? Casos assim acontecem todos os dias, às vezes na casa ao lado, e nem percebemos. Um deles, ocorrido esta semana em Teresina, chocou o Piauí e o Brasil.
Uma idosa de 73 anos, portadora de câncer metastático, foi encontrada abandonada pelos próprios filhos em uma casa sem portas, janelas, energia elétrica ou água potável, no bairro Dirceu Arcoverde, zona Sudeste da capital. O local estava tomado pela sujeira, e até as fraldas usadas eram jogadas no quintal.
Segundo a Delegacia do 8º Distrito Policial, a denúncia partiu de vizinhos, revoltados com o estado de degradação em que a mulher vivia. “Constatamos que ela não tinha condições de permanecer sozinha. A casa era completamente insalubre”, afirmou a delegada Amanda Bezerra.
O detalhe mais cruel: o filho que supostamente cuidava da idosa já possuía medida protetiva por violência doméstica. Ele era usuário de drogas e vivia da ajuda de uma vizinha, que alimentava a senhora com mantimentos pagos por outro dos filhos. Diante da gravidade da situação, a Justiça determinou a retirada imediata da vítima e seu acolhimento em abrigo público, onde agora recebe cuidados médicos e sociais.
Cinco filhos foram indiciados por abandono e maus-tratos, sendo dois por participação direta e três por omissão imprópria, isto é, sabiam da situação, mas nada fizeram. Todos responderão criminalmente. O caso foi encaminhado ao Ministério Público para providências legais.
A legislação é clara: abandonar um idoso é crime. O Estatuto do Idoso (art. 98 e 99) prevê pena de 6 meses a 3 anos de prisão, agravada se houver lesão grave ou morte. Já o Código Penal (art. 133) trata o abandono de incapaz como crime, com pena de até 12 anos de reclusão nos casos fatais. Projetos em tramitação no Congresso querem endurecer ainda mais as punições, classificando o abandono como crime hediondo.
Mas, além das penas, o caso expõe uma ferida aberta: a desumanização das relações familiares. O idoso, antes pilar do lar, tornou-se peso. Em vez de afeto, recebe indiferença; em vez de amparo, o esquecimento. Uma sociedade que abandona seus velhos perde não apenas sua memória — perde sua alma.
O caso da idosa abandonada em Teresina é apenas a face mais visível de um mal maior: o desprezo do próprio governo pelos idosos brasileiros. Recentemente, o país assistiu estarrecido ao assalto milionário contra aposentados e pensionistas do INSS, vítimas de uma organização criminosa infiltrada dentro do próprio Instituto, com a conivência de diretores e conhecimento do então ministro da Previdência Social, Carlos Lupi.
O esquema fraudulento desviou mais de R$ 6,3 bilhões, lesando cerca de 9 milhões de “velhinhos”, que tiveram seus benefícios manipulados e comprometidos em empréstimos consignados indevidos. Um golpe que simboliza, com crueldade, o quanto o Estado brasileiro trata seus anciãos não como cidadãos a proteger, mas como números a explorar.
No fim, perguntas simples e dolorosas: que país é este? Que tipo de filhos somos, se nossos pais e mães morrem de fome, doença e solidão dentro de suas próprias casas?
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