
Cresce a angústia no campo
Desde o início do terceiro governo Lula, agricultores médios e pequenos têm registrado, cada vez mais, endividamento, dificuldade de acesso a crédito e insegurança financeira. Apesar dos anúncios oficiais de apoio e medidas emergenciais, o desempenho prático da política agrícola deixa claro que muitos produtores estão sendo deixados à própria sorte — sem rede de proteção suficiente para sobreviver.
A inadimplência aumenta, ainda que lentamente
Dados da Serasa Experian mostram que a inadimplência entre produtores rurais pessoa física chegou a 7,9% no primeiro trimestre de 2025, um aumento em comparação com trimestres anteriores. Embora ainda pareça “moderada”, a trajetória ascendente revela um alerta: muitos já não conseguem arcar com empréstimos agrícolas ou manter safras sem risco.
Médios e pequenos: os mais penalizados
Embora grandes produtores também enfrentem problemas, são os médios e especialmente os pequenos que sentem com mais força o aperto. Com garantias pequenas ou menos formalidades, enfrentam barreiras burocráticas ou exigência de avalistas que muitas vezes não têm. O seguro rural, instrumento importante de mitigação, está sendo restringido para médios produtores — a partir de julho de 2025, o Proagro reduzirá seu limite de cobertura para R$ 200 mil por operação.
Cortes no seguro rural e incerteza orçamentária
Há sinais claros de desmonte ou, no mínimo, de fragilização das redes de proteção. O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) teve parte de seus recursos congelados: cerca de R$ 445 milhões, o que corresponde a cerca de 42% da dotação orçamentária prevista. Esses cortes ocorrem em momentos de eventos climáticos extremos, quando seguradoras e obrigações de risco rural deveriam estar mais presentes, não menos.
Programas de renegociação: promessas que aliviam, mas não resolvem
O governo lançou medidas como o Desenrola Rural, voltado a agricultores familiares, para renegociar dívidas, limpar restrições de crédito e permitir que quem está inadimplente volte ao sistema. Também instituiu uma linha de crédito emergencial de R$ 12 bilhões para produtores afetados por secas ou enchentes, majoritariamente pequenos e médios. Mas essas medidas são vistas por muitos como remendos: chegam depois do acúmulo das perdas, quando já há comprometimento real da capacidade produtiva.
Juros, custo dos insumos e crédito caro
Mesmo quando existe crédito disponível, ele tem custo elevado ou condições rígidas demais. As taxas praticadas para médios produtores via novas linhas, ainda que anunciadas, impõem encargos que nem sempre são compatíveis com margens apertadas ou prejuízos recentes. Isso dificulta a “virada de página” para quem precisa replantar ou reformar infraestrutura. O crédito tornou-se para muitos uma camisa de força, não alavanca.
Recuperações judiciais se multiplicam
Outro sintoma mais grave: o número de pedidos de recuperação judicial no agronegócio subiu 45% no início de 2025 comparado ao mesmo período de 2024. São produtores cujos negócios estão no limite — falhas de colheita, custos crescentes, falta de liquidez para honrar dívidas correntes. Isso mostra que não se trata apenas de incerteza, mas de falência de fato em muitos casos.
Falta de planejamento, previsibilidade e transparência
Parte do problema está em decisões orçamentárias e em extrema dependência de medidas emergenciais. Cortes feitos sem aviso, atrasos na liberação orçamentária do seguro rural, critérios pouco claros para acesso a novos financiamentos — tudo isso cria ambiente de imprevisibilidade para o produtor, que planeja safras com horizonte de longo prazo, mas vive como se estivesse em terreno minado.
O governo reconhece — mas não convence
Lula e ministros vinculados ao setor afirmam estar atentos: há reconhecimento público das crises climáticas, das perdas de safras e do impacto do custo dos insumos. Mas reconhecimento + anúncio não bastam: o setor reclama que os recursos não chegam, os prazos são apertados, e as políticas beneficiam mais quem já tem escala ou infraestrutura — não quem está fragilizado.
Conclusão: quem planta o futuro está sendo deixado para trás
Se continuar nesse ritmo, a política agrícola do governo Lula 3 corre o risco de consolidar um colapso silencioso dos médios e pequenos produtores — segmentos fundamentais para segurança alimentar, diversidade produtiva e economia das cidades pequenas. Os grandes produtores têm mecanismos de acesso a crédito internacional, capital privado ou resiliência inercial; os pequenos e médios, não. E são eles que verdadeiramente sustentam a base do agro que abastece mesas, mercados locais e agricultura familiar. Sem mudança estrutural — crédito acessível e contínuo, seguro eficaz, garantias reais e burocracia reduzida — o que parecerá forte e pujante poderá tornar-se refém de concentração, dependência e precariedade.
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