
Se fosse enredo de peça teatral, talvez até arrancasse gargalhadas. Mas não, é a realidade nua e crua: um município em estado de emergência pela seca decide gastar quase R$ 1 milhão em shows. É a velha máxima do “pão e circo”… só que em Rio Grande do Piauí esqueceram do pão. O que sobrou foi apenas o circo – e dos caros.
O prefeito Antônio Luís da Costa parecia disposto a transformar a sofrida Rio Grande em uma micareta milionária. Para isso, reservou R$ 600 mil para Léo Santana e R$ 310 mil para Kiko Chicabana. Tudo com o dinheiro público, claro. O mesmo dinheiro que poderia ser convertido em 1.515 cestas básicas, em chafarizes para a zona rural, em um posto de saúde ou até em escolas para os filhos do povo. Mas a prioridade, ao que parece, era o trio elétrico.
A resposta veio da Justiça. O Ministério Público do Piauí entrou em cena e pediu o cancelamento da festança. O juiz Mário Soares de Alencar não mediu palavras: classificou os contratos como “gastos desarrazoados”, um desrespeito à situação crítica vivida pela população que amarga sede e fome. Determinou não só a suspensão dos shows como também a devolução aos cofres públicos de valores eventualmente já pagos.
Enquanto isso, o próprio município tentou se justificar dizendo que distribuiu 1.200 cestas básicas e enviou carros-pipa para algumas comunidades. Um esforço tão pequeno diante da magnitude da seca que beira o deboche. Como se jogar uma migalha fosse suficiente para calar a voz de quem tem sede e fome.
E aqui surge a pergunta incômoda: o que há por trás dessa gastança absurda? É apenas insensibilidade de um gestor que não sabe priorizar? Ou será que existe algo mais, algo que todos suspeitam, mas poucos ousam dizer em voz alta? Afinal, não é de hoje que shows milionários em pequenos municípios levantam suspeitas de “comissão por fora”. Claro, não há prova contra Rio Grande do Piauí, mas o imaginário popular é fértil – e, nesse caso, até compreensível.
Agora, com os contratos suspensos, o prefeito tem diante de si uma oportunidade rara: calar a oposição e virar o jogo, aplicando o dinheiro onde realmente importa. Escolas, saúde, abastecimento de água, combate à fome. Mas se preferir insistir no circo, sem pão, a história o julgará. E a população também.
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