
O caso envolvendo o sindicalista Carlos Roberto Ferreira Costa, da Conafer, expõe não apenas um esquema de corrupção milionário, mas também a fragilidade das instituições encarregadas de fiscalizar o sistema financeiro brasileiro. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras — Coaf, órgão que deveria atuar como radar contra a lavagem de dinheiro, só agora detecta movimentações que chegam à casa dos R$ 6,3 bilhões. A questão é inevitável: como cifras tão fabulosas passam despercebidas?
Durante anos, qualquer movimentação atípica — até mesmo de algumas dezenas de milhares de reais — acendia alertas e, não raro, virava manchete de jornal. Famílias, empresários, políticos e até mesmo cidadãos comuns tiveram suas vidas devassadas por conta de operações suspeitas. Mas quando se trata de uma quadrilha organizada, sugando aposentados e multiplicando cifras bilionárias, o sistema simplesmente falhou.
O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar (União/AL), não poupou palavras ao requerer a prisão preventiva de Carlos Roberto. Segundo ele, há indícios claros de lavagem de dinheiro, repasses pulverizados para “laranjas” e até transferências vultosas de R$ 140 milhões a pessoas ligadas ao esquema. Só do bolso dos aposentados, mais de R$ 800 milhões podem ter sido surrupiados.
A falha do Coaf em detectar a tempo tais movimentações levanta uma dúvida incômoda: trata-se de mera incompetência ou de complacência seletiva? Quando se trata de determinados alvos políticos, relatórios “pipocam” rapidamente nos jornais. Mas, neste caso, com cifras que beiram o inacreditável, o silêncio e a demora chamam a atenção.
Onde o Coaf errou? O órgão existe exatamente para identificar transações fora do padrão, rastrear lavagem de dinheiro e municiar autoridades competentes. Se a função não é cumprida, estamos diante de um risco sistêmico: o Brasil se torna terreno fértil para a expansão de organizações criminosas de colarinho branco, que movimentam bilhões sem medo de serem notadas.
Serão essas falhas corrigidas? O episódio deveria servir de ponto de inflexão, mas o histórico brasileiro não inspira otimismo. Enquanto escândalos anteriores, como Mensalão e Lava Jato, resultaram em investigações céleres, muitas vezes vemos denúncias robustas sendo diluídas com o tempo, até caírem no esquecimento ou na gaveta do Ministério Público.
A ironia é cruel: enquanto aposentados sofrem para receber seus benefícios, sindicalistas e quadrilhas se aproveitam da fragilidade do sistema para enriquecer às custas da miséria alheia. O Coaf, por sua vez, parece ter se transformado em um cão de guarda que só late quando lhe convém.
O Brasil assiste a mais um escândalo bilionário e se pergunta: até quando órgãos de controle vão falhar em seu dever básico? Porque se o Coaf não serve para detectar movimentações de bilhões, talvez devêssemos questionar: para que serve o Coaf, afinal?
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