
O assassinato de Walker Cleves da Silva Santos, de apenas 13 anos, em São Raimundo Nonato, é mais do que uma tragédia pessoal e familiar. É o retrato cruel de um Estado onde a criminalidade avança, ocupa espaços antes pacatos e ameaça o direito básico de viver em paz.
Walker não morreu por “bala perdida”. A bala tinha dono, tinha origem, tinha direção. Alguém puxou o gatilho e decidiu disparar em via pública, sem se importar com quem estivesse por perto. O alvo era outro, mas o destino escolheu um inocente: um garoto que apenas brincava na rua, no mesmo bairro onde morava, no aconchego que deveria representar segurança.
A Polícia Militar informou que o acusado, Francisco Pereira da Silva, conhecido como “Cocó”, perseguia um homem chamado Janiel após uma discussão. Durante a fuga, o criminoso disparou várias vezes. Em uma dessas rajadas de violência, o projétil encontrou Walker, que tombou sem ter chance de defesa. A criança foi socorrida, mas não resistiu.
No velório, a comoção foi avassaladora. Os colegas de time fizeram um “último gol” em sua homenagem: a bola passou de pé em pé até tocar o caixão. Uma cena de cortar o coração e de expor, em sua dimensão mais dolorosa, a brutalidade de um crime que nunca deveria ter acontecido.
São Raimundo Nonato, uma cidade conhecida por sua história, cultura e tranquilidade, agora vive o luto e a indignação. Como aceitar que ruas onde crianças brincavam livremente se tornem palco de execuções e de vidas ceifadas pelo descaso e pela impunidade?
A criminalidade não escolhe mais apenas os grandes centros. Ela se infiltra em bairros, povoados e comunidades do interior, transformando a rotina das famílias em um permanente estado de medo. O crime, antes distante, agora bate à porta de qualquer um.
O caso de Walker escancara o esfacelamento do pacto social. Quando um menino de 13 anos é morto sem ser sequer o alvo principal, fica claro que o direito à infância foi sequestrado pela violência. A família, a escola, os amigos — todos foram atingidos junto com ele.
O assassino está foragido, mas sua prisão, por mais necessária que seja, não devolverá a vida de Walker. A grande questão é: quantos mais precisarão morrer até que o Estado enfrente de verdade o domínio do crime sobre a vida social?
Walker se foi cedo demais, vítima de uma guerra não declarada, mas sentida por todos. Seu nome não pode ser reduzido a mais uma estatística. Ele era filho, aluno, amigo, jogador de futebol. Era futuro. E esse futuro foi roubado com um disparo covarde.
A sociedade piauiense precisa gritar, cobrar e se mobilizar. Porque amanhã, se nada mudar, a bala pode ter outro nome, outro endereço, outra infância interrompida. E nenhuma família deveria carregar o peso de enterrar um filho por causa da irresponsabilidade armada de um criminoso.
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