
No mundo dos negócios, há quem se acomode no conforto de um cais seguro, acreditando já ter chegado ao destino. Mas o empreendedor de verdade sabe: é no reconhecimento da própria pequenez que mora a grandeza. O que se acha pronto, estagna; o que se sabe incompleto, continua a crescer.
Mário Sérgio Cortella fala em “insatisfação positiva”. É a chama que não deixa o viajante adormecer no meio da estrada. Diferente da insatisfação amarga, que se enrola em queixas, essa outra é motor, é vento na vela, é fome de mais. O empreendedor, movido por essa sede, recusa o apequenamento da vida.
Umberto Eco já dizia que somos uma “obra aberta”. Talvez sejamos mesmo um livro em constante reescrita, onde cada página pode ser rasgada, refeita, reinventada. Quem ousa empreender sabe que viver é não se conformar, é aprender a habitar as perguntas. A humildade não é fraqueza: é bússola que aponta os limites e convida a superá-los.
Somos seres movidos pelo futuro. Ensina Cortella que construímos no presente a escada que nos leva adiante. ‘Projeto’, lembra ele, vem de projetar: lançar-se para frente. Nesse caminho, é preciso distinguir sonho de delírio. O sonho é expectativa plausível, algo que se constrói passo a passo, até se tornar realidade. O delírio, ao contrário, é fantasia irrealizável. Empreender, como sonhar, não é chegar a um ponto final: é perseguir um horizonte que nunca se alcança por inteiro. O perigo está em acreditar que o sonho foi plenamente realizado, pois isso leva à estagnação, e ao fim do negócio. Em latim, ‘perfectum’ significa ‘feito por completo, acabado’. O perfeito, portanto, é algo morto. Um sonho que se encerra rouba a vitalidade. Empreender é não se satisfazer com o já feito, mas renovar-se continuamente, evitando as pequenas mortes da acomodação.
No empreendedorismo, não cabe a lógica do ‘fazemos qualquer negócio’ nem a ambição de vantagens ‘a qualquer custo’. Esse caminho destrói reputações e pode arruinar um negócio inteiro. Competir, sim; mas sempre com ética. Afinal, uma competitividade sem ética não é competição, mas predação. Como lembra Cortella, citando os cristãos, Jesus de Nazaré advertiu: ‘De que adianta a um homem ganhar o mundo se perder a sua alma?’ No fim, a escolha é de cada um: preservar a alma ou sacrificá-la em troca de um sucesso aparente.
E, justamente porque a ética é o que sustenta o valor de qualquer conquista, o empreendedor precisa estar atento ao movimento incessante da vida. Negócios não se constroem em terreno estático: tudo flui, tudo muda. Já alertava Heráclito que nenhum homem se banha duas vezes no mesmo rio. A frase atravessou os tempos porque é verdade pura: a única permanência é a mudança. E o empreendedor, mais do que ninguém, precisa dançar nesse fluxo.
O empreendedor deve entender que a economia é como o rio caudaloso, cheio de corredeiras e redemoinhos. Ou como o mar, exposto a tempestades e grandes ondas. Ora mansa, ora revolta, a economia está sempre sujeita a marés de juros, tributos, guerras, descobertas tecnológicas. E, de repente, um decreto em Washington ou uma tarifa imposta por Trump faz o café, a carne e as frutas do Brasil sentirem o sal da correnteza. O mundo gira em espirais invisíveis, e o empreendedor aprende que chão firme é ilusão.
Ainda assim, há beleza nessa travessia. Empreender é acordar sabendo que cada dia traz uma paisagem inédita. É aceitar que o amanhã é surpresa e que só a inquietação mantém o barco em movimento.
Porque, no fundo, empreender é isso: lançar-se ao rio ou ao mar que nunca são o mesmo e, mesmo sem garantias, descobrir que vale a pena navegar.
Referência citada:
CORTELLA, Mário Sérgio. Filosofia: e nós com isso? Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.
*Marcelo Martins Eulálio é advogado, professor universitário, articulista e Mestre em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí.
DIREITOS HUMANOS Roque Aras, um nordestino
CREDIBILIDADE STF em baixa: da confiança institucional à crise de credibilidade
JUSTIÇA INCLUSIVA A Justiça na praça: quando o sistema de justiça encontra o povo
Mín. 23° Máx. 32°