
O assassinato de Penélope de Brito, comandante da Guarda Municipal de Parnaíba, pelo ex-marido Francisco Fernando, expõe mais uma vez a face cruel do machismo estrutural que corrói a sociedade brasileira. Não se trata apenas de um crime passional, mas de um feminicídio premeditado, motivado pela incapacidade de um homem aceitar a autonomia e o protagonismo de uma mulher — inclusive no espaço de poder que ele próprio ocupava.
Na lógica do patriarcado, a mulher ainda é vista como posse do homem. Quando ela decide romper a relação ou ascender socialmente, o “dono” se sente desafiado, traído, humilhado. A violência, nesse contexto, não surge do amor, mas da ânsia pelo controle perdido. A psicologia explica que muitos desses homens internalizam a ideia de que sua masculinidade está atrelada à submissão feminina; quando essa estrutura desmorona, eles recorrem à violência extrema como forma de reafirmar poder.
A frase recorrente “matei porque amava” não encontra respaldo na ciência. Amor não mata, posse sim. O que se revela nesses casos é o narcisismo ferido, o medo da rejeição e a incapacidade de lidar com frustrações afetivas. O sentimento de traição, tão usado como justificativa, é apenas um álibi para encobrir o óbvio: trata-se de um crime de ódio contra a liberdade da mulher.
Nada. Nenhum homem que mata sua ex-esposa ou companheira “vence” algo. Ao contrário, expõe a própria fraqueza, a incapacidade de lidar com a autonomia da mulher e o fracasso em construir relações baseadas em respeito e igualdade. O feminicídio não é ato de paixão, é ato de covardia.
Segundo a investigação, Francisco Fernando não suportava ver Penélope no comando da Guarda Municipal, posição conquistada por mérito e competência. Ele chegou a impor um ultimato: ou ela deixava o cargo ou o casamento acabaria. Ao recusar a chantagem, Penélope pagou com a vida. O casal tinha um filho de apenas cinco anos, que agora cresce órfão de mãe e com a marca da violência paterna.
A brutalidade, contudo, não parou aí. Francisco também assassinou o atual companheiro de Penélope, o vereador Thiciano Ribeiro, atirando pelas costas, sem chance de defesa e por motivo torpe. Um ato que escancara ainda mais o caráter premeditado, vingativo e covarde do crime.
Enquanto a sociedade continuar tratando o feminicídio como crime passional ou fruto de descontrole momentâneo, estaremos perpetuando a lógica que naturaliza a violência contra a mulher. É urgente compreender que o feminicídio é a ponta mais visível de um sistema de opressão milenar, sustentado por um machismo estrutural que legitima a posse, a dominação e, em casos extremos, a execução de mulheres que ousam ser livres.
O Brasil não pode mais aceitar a narrativa de que esses homens são “pacíficos” que “perderam a cabeça”. Eles são, antes de tudo, produtos de uma cultura que ainda ensina que a mulher deve se submeter, sob pena de morte.
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