
O Piauí é um Estado de contrastes. Por um lado, um povo empobrecido, dependente de programas sociais; a indústria patina em meio a altos impostos e falta de mão de obra qualificada; o comércio enfrenta uma crise que se arrasta há mais de uma década. Por outro, o Estado é um celeiro de talentos que brilha no Brasil e no mundo. Nossa arte pulsa: santeiros, arquitetos, artistas, humoristas e designers mostram que, apesar das dificuldades, o Piauí sabe criar, inovar e exportar cultura.
Entre esses talentos, destaca-se Kalina Rameiro, natural de Pedro II, uma designer de moda, joalheira e empreendedora que transformou o artesanal em luxo com propósito e impacto social. Kalina teve recentemente seu trabalho destacado na Exame, reconhecendo a relevância do seu ateliê e do impacto de suas criações no cenário nacional e internacional. Aliás, tive o privilégio de receber um mimo seu: um chaveiro com a inscrição em metal “Nos livra de todo o mal”, que carrego como lembrança da força criativa desta piauiense arretada.
Desde criança, acompanhando suas avós crocheteiras, Kalina aprendeu que o trabalho manual podia sustentar famílias e gerar oportunidades. Inspirada pela cultura do seu povo e pelos recursos naturais de sua terra, como as pedras de opala, começou a criar peças ainda na escola – suas primeiras vendas surgiram nos corredores entre cadernos e conversas.
Com o tempo, transformou a intuição em empresa estruturada. Em 2001, nasceu o Ateliê Kalina Rameiro, onde o luxo dialoga com a ancestralidade e a sustentabilidade. Suas criações vão de bolsas e almofadas a joias em prata e ouro reciclado. A marca ganhou corpo com capacitação em gestão, precificação e operação, além de cursos e consultorias do Sebrae. Cada peça carrega história, criatividade e responsabilidade social.
O impacto de Kalina vai além da estética. Projetos como “A Gente Transforma”, idealizado por Marcelo Rosenbaum, permitiram que ela cocriasse soluções com mulheres de comunidades vulneráveis no sertão do Piauí, gerando renda, autoestima e visibilidade para territórios historicamente invisíveis. “Meu papel foi escutar, aprender e cocriar. Cada produto é uma ponte entre cultura, transformação e oportunidade”, lembra Kalina.
Hoje, Kalina voa ainda mais alto: em setembro, estará expondo no Maison&Objet, em Paris, levando joias feitas de espinhos e conchas banhadas a ouro, conectando a herança cultural brasileira ao luxo contemporâneo. Sua trajetória mostra que o Piauí não é apenas um Estado pobre: é um produtor de talento, resiliência e inovação.
A lição que fica é clara: empreender com propósito, escuta e coragem transforma vidas e territórios. Kalina Rameiro prova que a força de uma mulher piauiense, aliada à criatividade e à gestão, é capaz de conquistar o mundo.
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