
Toda vez que vejo a mídia piauiense - sempre em bloco - divulgando alguma informação sobre o Porto Piauí, sinto um misto de curiosidade e preocupação.
Sim, curiosidade porque fico a imaginar que finalmente o Piauí pode ter um porto marítimo, embora, até o momento, tudo que se tenha seja apenas o entreposto pesqueiro construído na foz do Rio Igaraçu.
Preocupação, porque estão vendendo uma ideia de operacionalização do Porto a curto prazo, já em 2026, e para a exportação de minério de ferro. Ora, o minério de ferro é um produto a granel que necessita de infraestrutura específica, robusta e complexa. Definir prazo para 2026 me parece precipitado. Teremos tempo hábil para implementar toda a estrutura e adquirir os equipamentos necessários?
Detalhe: são equipamentos cujo custo pode variar entre US$ 150 milhões e US$ 1 bilhão. E mais: não são máquinas comuns. Trata-se de equipamentos importados, altamente especializados e que dificilmente se encontram para pronta entrega — muitos precisam ser encomendados com antecedência de anos. Quem vai investir tudo isso? O Estado? A iniciativa privada?
E ainda nem entramos na questão do calado do canal, que parece não suportar sequer navios de pequeno porte. Além disso, restam as dúvidas sobre a malha rodoviária, já que a própria PRF identificou gargalos e problemas graves nas BRs que dão acesso ao litoral.
A sensação é de que a gestão do porto busca sustentar uma narrativa otimista, sem responder a questionamentos básicos:
O porto é apenas um cais de 150 metros com 16 cabeço de amarração?
Qual o calado real?
Como será feito o embarque e o transbordo do minério a granel?
O que garante que os prazos serão cumpridos?
Sem essas respostas, o que temos não é reportagem, mas um release oficial. Ou seja, propaganda do governo.
O embarque de minério em um porto fluvial ou marítimo exige um conjunto de sistemas robustos, contínuos e de grande capacidade. Eis os principais:
Pátios de estocagem → grandes áreas para acumular minério antes do embarque.
Stackers (empilhadeiras de minério) → equipamentos móveis que distribuem e empilham o minério no pátio de forma controlada.
Reclaimers (recuperadoras de minério) → responsáveis por retirar o minério do pátio e alimentar o sistema de transporte.
Correias transportadoras → fundamentais para transferir o minério entre pátio, silos e píer de embarque.
Silos e funis de carregamento → fazem a armazenagem temporária do minério até sua transferência para as embarcações.
Shiploaders (carregadores de navio/barcaça) → estruturas móveis que lançam o minério diretamente nas barcaças ou navios menores.
Torres de embarque com lança móvel → permitem o ajuste para diferentes tipos de embarcações.
Balanças rodoviárias e ferroviárias → essenciais para o controle de peso das cargas recebidas e embarcadas.
Sistemas de aspersão de água e controle de poeira → obrigatórios para minimizar impacto ambiental.
Sistema de dragagem/manutenção do canal → necessário para garantir profundidade adequada ao tráfego das embarcações.
Esses equipamentos, em sua maioria, são importados de países com indústria pesada consolidada (Alemanha, China, Japão) e demandam altos custos logísticos, prazos de fabricação, transporte e instalação.
Um terminal de médio porte, com capacidade de movimentar de 5 a 10 milhões de toneladas por ano, pode custar entre US$ 150 milhões e US$ 300 milhões. Já estruturas maiores, semelhantes às da Amazônia ou Carajás, chegam a ultrapassar US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão.
Obras civis (píer, berços, dragagem, pátios): 30% a 40% do custo total.
Equipamentos de manuseio de granel (stackers, reclaimers, shiploaders, correias): 40% a 50%.
Sistemas auxiliares (energia, automação, segurança, meio ambiente): 10% a 20%.
Resumo
Não se trata apenas de um cais de 150 metros com 16 cabeço de amarração, como tenta vender a narrativa oficial. O embarque de minério de ferro exige infraestrutura bilionária, equipamentos importados e anos de planejamento logístico. O discurso de que o Piauí começará a exportar minério em 2026 não resiste a questionamentos técnicos básicos.
E que fique claro que não somos contra a construção de um porto. Assim como todo piauiense, eu também sonho com um porto marítimo para chamar de nosso. Sabemos da importância estratégica dessa obra para o desenvolvimento do Estado, que talvez seja o único do Nordeste a não dispor de um porto capaz de escoar sua produção – não apenas de minério de ferro, mas também de cera de carnaúba, caulim, soja, milho e grãos em geral.
Entretanto, precisamos sonhar com os pés no chão e os olhos bem abertos. Afinal, desde o Império, governantes, movidos por boas ou más intenções, têm usado a promessa do porto como estratégia para engabelar os votos dos piauienses e, no fim, nada entregam além de frustração e decepção ao nosso povo.
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