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Teresina 173 anos: entre o sonho planejado e os desafios da realidade

Da ousadia pioneira de José Antônio Saraiva ao apelido poético de Coelho Neto, a “Cidade Verde” celebra conquistas, mas ainda enfrenta desigualdade, má gestão e falta de transparência

16/08/2025 às 11h06 Atualizada em 16/08/2025 às 12h26
Por: Douglas Ferreira
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Teresina 173 anos: entre o sonho planejado e os desafios da realidade

Em 16 de agosto de 1852, foi assinada a transferência da capital do Piauí de Oeiras para a Vila do Poti, nas margens dos rios Parnaíba e Poti, projetada estrategicamente pelo presidente da província, José Antônio Saraiva, com o apoio do mestre de obras João Isidoro França. A cidade, batizada em homenagem à imperatriz Teresa Cristina, foi oficialmente erguida com traçado geométrico, ruas simétricas e orientação planejada — a primeira capital concebida dessa forma no Brasil. Um feito pioneiro, embora enfraquecido pelos ventos do tempo.

Pouco depois, em 1899, o poeta maranhense Coelho Neto conferiu-lhe um apelido que atravessa os séculos: “Cidade Verde”, apelido que ignorou a aridez sertaneja e valorizou o verde que permeava a urbe nascente. Um tributo literário que se tornou marca identitária.

De pioneira planejada a metrópole contemporânea

Teresina cresceu — e com o crescimento, perdeu um pouco da aura de cidade planejada. Hoje, com cerca de 903 mil habitantes, convive com o desafio de administrar seu inchaço populacional e a expansão urbana que às vezes esquece a sua origem ordenada.

Mesmo assim, celebra avanços notáveis: IDHM de 0,751, enquadrando-a na faixa de desenvolvimento humano alto. Componentes sólidos como longevidade (0,82), renda (0,73) e educação (0,71) corroboram essa trajetória. Com PIB per capita em torno de R$27.430, a capital também se destaca economicamente.

Na educação, a escolarização entre 6 e 14 anos atinge 97,8%, e a mortMalidade infantil, embora ainda elevada em 15,48 óbitos por mil nascidos, mostra avanços em relação ao passado. O Índice de Progresso Social (IPS) de cerca de 67,37 a coloca como a 11ª capital com melhor qualidade de vida no país, em 2024.

Contrastes evidentes: desigualdade e governança

Mas nem tudo é verde e progresso. A desigualdade persiste: o Índice de Gini de 0,61 (medida estatística que quantifica o grau de desiqualdade na distribuição de renda ou riqueza em uma determinada população) escancara disparidades profundas. E, talvez o mais alarmante, Teresina figura entre as capitais com pior desempenho em transparência pública, com apenas 32,1/100, ocupando a 24ª posição entre 25.

Heróis e marcos urbanos

Entre os nomes que marcaram sua construção, destaca-se o próprio José Antônio Saraiva, reconhecido pela coragem de vislumbrar uma capital moderna e estrategicamente conectada com o Nordeste continental — rompendo o isolamento que Oeiras impunha.

No coração da cidade, a Praça da Bandeira (atual Praça Marechal Deodoro) ergue-se como marco-zero da fundação urbana. Cercada por edifícios históricos — Mercados, igrejas, museu, prefeitura — foi palco de fundação, comércio, cultura e política.

O Liceu Piauiense, a escola pública mais antiga do estado, também faz parte dessa memória. Originado em Oeiras, ganhou novo fôlego em Teresina a partir de 1853.

Território sertanejo, horizonte cosmopolita

Única capital do Nordeste localizada no sertão, Teresina assumiu posição estratégica: centro regional de saúde, educação e turismo de negócios. A solidez dos seus indicadores sociais e a densidade populacional reunida em ambiente urbano consolidam o município como referência.

A hospitalidade como bandeira

Por trás dos números e edifícios, pulsa a hospitalidade teresinense — reconhecida nacionalmente, um atributo profundamente nordestino e especialmente vibrantemente presente entre seus moradores. A cidade pode tropeçar em crises administrativas, mas seu povo insiste em acolher com um sorriso, uma gentileza que segue intacta, em meio a cimento e asfalto.


Neste aniversário de 173 anos, Teresina é um híbrido vibrante: urbanidade mesclada com calor humano; planejamento desafiado pela expansão; evidências de avanço social contrastadas pela desigualdade e pela opacidade administrativa. Uma capital verde que resiste, se reinventa e acolhe — merecedora de celebração, crítica e esperança.

Parabéns a todos os teresinenses, e àqueles que escolheram essa cidade para viver, trabalhar, criar uma família. Que seu futuro continue verde, desafiador, humano — e essencialmente teresinense.

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