
Hoje, 10 de agosto, o calendário manda celebrar o Dia dos Pais — uma data que, para muitos, simboliza amor, presença, gratidão. Para mim, é um misto de saudade profunda e reencontros pequenos, mas poderosos.
Meu velho e querido pai, Francisco Ferreira Lima, o Chicó, não está mais aqui. Ele se foi, mas a saudade não dá trégua. Não pude estar com ele, não troquei um abraço, não ouvi sua voz. Mas, ao mesmo tempo, tive a bênção do meu pequeno Victor Hugo Moreno, o Reizim, que do zero da madrugada já me cobriu de parabéns, presentes, abraços e cartinhas feitas com aquele amor genuíno e sem interesses.
Entre sorrisos infantis e a rotina cansada da Mileyd, minha esposa que voltou exausta do plantão, repensei: por que mesmo comemoramos esse Dia dos Pais? De onde veio essa data? E qual é, afinal, seu verdadeiro significado em meio a tantas mercadorias embaladas, lojas cheias e promoções agressivas?
Foi o publicitário Sylvio Bhering quem, em 1953, institucionalizou o segundo domingo de agosto no Brasil, não só para honrar a figura paterna, mas também para impulsionar as vendas. A intenção mercadológica, franca e escancarada, está lá, nas entrelinhas, jogando sombra sobre a emoção genuína.
Mas a origem do Dia dos Pais remonta aos Estados Unidos, quando Sonora Smart Dodd, filha de um veterano da Guerra Civil, buscou homenagear o pai que, sozinho, criou seus filhos após a morte da mãe. Era uma celebração sincera, íntima, uma resposta ao abandono e à dor.
Aqui, no Brasil, essa data ganhou um toque católico ao ser inicialmente ligada a São Joaquim, pai de Maria. Mas a tradição foi se modificando para seguir o padrão do Dia das Mães, o que revela algo curioso: o afeto paterno acabou se encaixando numa lógica de mercado e calendário, em vez de brotar da espontaneidade do laço familiar.
O Dia dos Pais, assim, tornou-se um momento ambíguo: é a oportunidade de um almoço em família, de abraços e palavras que fazem bem — mas também virou palco de consumo, de pressões para comprar, presentear, consumir.
E essa contradição se reflete em cada gesto do cotidiano. Enquanto eu descascava um kilo de camarão congelado para o almoço que preparava pensando no que realmente importa, a saudade do meu pai me apertava o peito. Enquanto o Victor Hugo ria e escrevia suas cartinhas, eu entendia que o melhor presente é o tempo e o afeto despretensioso.
Neste Dia dos Pais, mais do que presentes e promoções, é urgente lembrar: a verdadeira homenagem é o reconhecimento sincero do papel do pai, a construção diária de um laço afetivo que transcenda a mercadoria. Porque, no fim, nem todo abraço se compra, nem toda palavra é vendida, e a saudade só se cura com presença verdadeira.
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