Domingo, 28 de Junho de 2026
32°

Tempo nublado

Teresina, PI

Piauí HIDROVIA E PORTO

Rafael Fonteles ressuscita os sonhos de Alberto Silva com hidrovia e Porto Piauí

Inspirado na ousadia do ex-governador, Rafael aposta em megaprojeto de R$ 1 bilhão para revitalizar o Rio Parnaíba, criar hidrovia de 924 km e impulsionar o escoamento da produção agrícola

07/08/2025 às 08h26
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Ao longo das últimas décadas o Rio Parnaíba atingiu um grau de assoreamento nunca antes visto - Foto: Reprodução
Ao longo das últimas décadas o Rio Parnaíba atingiu um grau de assoreamento nunca antes visto - Foto: Reprodução

A impressão que dá é que "baixou o santo" do saudoso governador Alberto Silva no jovem Rafael Fonteles. Sim. Os projetos do atual governador do Piauí têm a mesma aura de audácia, visão futurista e paixão desenvolvimentista que marcaram o legado de Alberto Silva. Em alguns aspectos, é como se fossem "cocó e transa" – para usar uma expressão antiga e bem piauiense.

Alberto Silva era um sonhador, daqueles que sonha até acordado. Mas como dizia o poeta: “os que não sonham não vivem”. E mais: “sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto vira realidade”. Pois bem, Alberto Silva sonhava alto. E sonhava pelo povo do Piauí. Um de seus maiores delírios, ou melhor, projetos, era o Porto de Luís Correia. No início dos anos 1970, durante seu primeiro governo, começou a tornar o sonho concreto com a construção do “molhe”, que hoje talvez fosse barrado pelas rígidas leis ambientais.

Agora, Rafael Fonteles retoma esse projeto com uma ousadia moderna. Lá atrás, quando o PT ainda nem existia (só surgiria em 1979), ninguém no Piauí ousava se contrapor aos planos de Alberto Silva – porque eram palpáveis, inspiradores, visionários. E frise-se, sem o fantasma da corrupção. No caso do molhe, Alberto fez, mas queria mais. Muito mais. Afinal, um molhe não é um porto. Assim como um cais, também não.

Queria uma hidrovia interligando o litoral piauiense ao Centro-Oeste do Brasil. A ideia era transportar sal de Luís Correia até Santa Filomena, e de lá seguir de caminhão até Goiás, Tocantins e Mato Grosso. Um devaneio? Talvez. Mas muitos devaneios mudaram o mundo. E esse era o tipo de sonho com propósito. Para isso, Alberto Silva mandou construir duas embarcações em um estaleiro de Parnaíba. Foram feitas do zero. Uma delas navegou pelo rio Igaraçu e, mesmo enfrentando o assoreamento do Parnaíba, chegou a Teresina com festa e romaria popular. Teve gente que lambia o casco da embarcação para ter certeza de que era mesmo feita de sal – ou pelo menos transportava o produto.

O “navio do sal”, como ele gostava de chamar (detestava quando diziam “barca”), ainda navegou no lago da barragem de Guadalupe. Ali, Alberto Silva anunciou que as eclusas seriam concluídas para permitir a continuidade da hidrovia até Santa Filomena. Mas os recursos não vieram. O governo atrasou a folha em até cinco meses. Faltou dinheiro, mas sobrava visão.

Corta para 2025. O “menino do Lula”, Rafael Fonteles, parece ter comprado o sonho do velho Alberto – embora em outros moldes e com objetivos adaptados à realidade moderna do estado. Afinal, os cerrados piauienses não são mais apenas terras ermas: hoje são potências na produção de grãos e ajudam a alimentar o mundo. Rafael vê esse potencial. E acredita.

O renascimento da hidrovia do Parnaíba

No dia 6 de agosto, em solenidade na Esplanada dos Ministérios, foi assinada a destinação de quase R$ 1 bilhão (R$ 995,5 milhões) para a revitalização do Rio Parnaíba e construção de uma hidrovia de 924 km, que ligará o município de Uruçuí (Sul) ao Porto de Luís Correia (Litoral).

Esse projeto é parte de um pacote viabilizado com recursos da privatização da Eletrobras, em 2022, voltado à recuperação das bacias dos rios Parnaíba e São Francisco. A execução está prevista para começar até o segundo semestre de 2026.

A nova hidrovia vai impulsionar o transporte de mercadorias, reduzindo custos logísticos e facilitando as exportações via Porto Piauí. O trajeto inclui atracadouros em Guadalupe e Teresina, interligando os polos produtivos do Sul ao litoral piauiense.

Mas o projeto vai além da navegabilidade. Estão previstas ações de:

  • Revitalização das nascentes;

  • Recomposição florestal;

  • Plantio de 1,2 milhão de mudas nativas;

  • Restauração de 470 hectares de mata ciliar;

  • Educação ambiental;

  • Esgotamento sanitário e abastecimento de água;

  • Dragagem e derrocagem;

  • Regularização do uso do rio.

Haverá também R$ 350 milhões de aporte direto da Porto Piauí e R$ 600 milhões da iniciativa privada, para construção de estações de transbordo entre hidrovia e rodovia.

Sonho viável ou devaneio moderno?

Se os planos são grandiosos como os de Alberto Silva, surgem também dúvidas legítimas:
O projeto inclui soluções para o assoreamento do Parnaíba, que continua grave? As eclusas serão mesmo concluídas? E o tempo de deslocamento da carga? Será competitivo frente aos modais rodoviário e ferroviário?

E mais: o Porto Piauí, como está sendo erguido, terá calado suficiente para embarcações médias? O Estado bancará tudo sozinho ou dependerá integralmente da União e de investidores privados?

Essas perguntas permanecem. Mas uma coisa é certa: pela primeira vez em décadas, o velho sonho do “navio do sal” ganha forma institucional e dinheiro carimbado. Rafael Fonteles arrisca alto, como o velho Alberto Silva fazia. E se der certo, não apenas honrará a memória do ex-governador, como também deixará sua própria marca na história do Piauí.

Se sonhar grande custa o mesmo que sonhar pequeno, que se sonhe gigante. Afinal, o futuro só pertence a quem ousa.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários