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Raymundo Faoro: o gigante dos Pampas que desnudou o poder no Brasil

Jurista, intelectual e presidente da OAB, autor de Os Donos do Poder mostrou como o Estado brasileiro nasceu patrimonialista e lutou pela redemocratização, deixando um legado que ainda ecoa no Direito e na política nacional

03/08/2025 às 06h11
Por: Douglas Ferreira
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Raymundo Faoro ficou conhecido como o interprete do Brasil por obras como Os Donos do Poder- Foto: Reprodução
Raymundo Faoro ficou conhecido como o interprete do Brasil por obras como Os Donos do Poder- Foto: Reprodução

Nesta série especial, celebramos os titãs do pensamento jurídico que ajudaram a forjar nosso Estado de Direito. E nenhum nome entre os grandes operadores contemporâneos do Direito pode faltar no Top 10: o de Raymundo Faoro, o mestre sapiencial que emergiu das planícies dos Pampas para iluminar a compreensão das instituições brasileiras.

Raymundo Faoro: do interior gaúcho à interpretação do Brasil

Raymundo Faoro, nascido em Vacaria (RS), em 27 de abril de 1925, foi advogado, jurista, cientista social, historiador e escritor. Filho de agricultores italianos, mudou-se na infância para Caçador (SC), onde completou os estudos secundários. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1948, e, a partir de 1951, iniciou sua carreira no Rio de Janeiro como advogado e, depois, procurador do Estado do Rio de Janeiro.

Em 1958, publicou sua obra-prima, Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro, que se tornaria referência obrigatória para entender a lógica do Estado patrimonial e do estamento burocrático no Brasil. Inspirado por uma abordagem sociológica weberiana, Faoro demonstrou como o país consolidou-se como uma república burocrática em que o poder público funciona como propriedade privativa de uma elite historicamente estável.

De propósito público à resistência democrática

Durante a ditadura civil-militar, Faoro assumiu a presidência da OAB Nacional (1977–1979) e transformou a entidade em reduto da resistência pacífica. Foi dele a primeira denúncia formal contra a tortura de presos políticos, o impulso pelo restabelecimento do habeas corpus e a campanha pela anistia ampla e irrestrita. Em um momento em que a oposição institucional estava silenciada, a voz da OAB tornou-se protagonista na mobilização pela volta da democracia.

A casa de Faoro nas Laranjeiras virou ponto de encontro de lideranças como Tancredo Neves e Lula, que até o convidou para ser seu vice em 1989 — convite recusado com humildade.

Sua contribuição imortal e legado jurídico

A tradução das instituições brasileiras feita por Faoro permanece atualíssima. Com Os Donos do Poder, ele antecipou a persistência de estruturas patrimonialistas na república moderna, revelando como o Estado no Brasil nunca foi neutro: é instrumento político utilizado por um estamento intrincado e duradouro.

Sua abordagem, que se distancia tanto do marxismo quanto de interpretações meramente procedimentais, elegeu uma tríade analítica: Estado, sociedade e elite patrimonialista. Foi pioneiro no uso crítico da teoria weberiana para entender a formação política nacional. Essa teoria, desenvolvida por Max Weber, foca na ação soscial e na racionalidade como elementos centrais para a compreensão da sociedde. 

Além disso, Faoro exerceu um papel essencial como articulador da memória democrática: foi presidente brilhante da OAB, cronista aguçado em veículos como IstoÉ, CartaCapital e Folha de S. Paulo, e membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000 até sua morte em 15 de maio de 2003.

Legado institucional e honra à cidadania

Em 2025, no centenário de seu nascimento, a OAB homenageou Faoro como símbolo da luta democrática e intelectualidade brilhante da advocacia nacional, reafirmando sua Medalha em seu nome como forma de perpetuar seus valores. A entidade o escolheu também como patrono da Conferência Nacional da Advocacia Brasileira, ressaltando sua inspiração perene para a classe jurídica e para o Estado democrático de Direito.

Reflexão final

Raymundo Faoro reuniu saber e ação pública, teoria e militância jurídica. Ele foi não apenas intérprete do Brasil — como insistiu em mostrar em seus ensaios — mas também defensor da cidadania e da justiça. Seu legado permanece como bússola crítica para os que sonham com um país onde o poder não se confunda com a propriedade.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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