
O Consórcio Nordeste voltou aos holofotes nesta quinta-feira, 31 de julho, mas não pelos melhores motivos. A entidade, hoje presidida pelo governador do Piauí, Rafael Fonteles, anunciou que vai reagir ao tarifaço de Donald Trump contra os produtos brasileiros, que ameaça setores estratégicos da economia nordestina. Mas a pergunta que ecoa é: por que só agora? E mais: para que serve, de fato, o Consórcio Nordeste?
Criado com a promessa de integrar esforços regionais e dar peso político aos nove estados, o Consórcio amarga até hoje um estigma quase incontornável: a compra frustrada de 300 respiradores durante a pandemia, pagos via pix a uma empresa que trabalhava com subprodutos da maconha. Os equipamentos nunca chegaram, o dinheiro evaporou e a mancha se cristalizou. Desde então, a imagem pública da entidade está associada à ineficiência, suspeitas e escândalo.
A instituição era presidida pelo então governador da Bahia, Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil do governo Lula da Silva. Já o atual ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, José Wellington Barroso de Araújo Dias, era o governador do Piauí à época.
E o impacto não é apenas de imagem. Quantas vidas poderiam ter sido salvas no auge da Covid-19 se os respiradores tivessem chegado? Qual foi a contribuição dessa ausência para o número de mortos no Nordeste? Até hoje não há devolução integral do dinheiro e a conta moral permanece pendente.
Agora, o Consórcio se mobiliza para “defender a economia nordestina” contra as tarifas impostas pelos EUA. O movimento envolve articulação com a ApexBrasil e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Fonteles garante que haverá mapeamento das perdas, tentativa de abertura de novos mercados e reuniões de alto nível com Lula e Alckmin nos próximos dias.
Entre os setores mais afetados, está o mel piauiense, reconhecido internacionalmente pela pureza e qualidade, com exportações anuais de R$ 100 milhões — 75% destinadas aos EUA. Em apenas 15 dias, 152 toneladas já deixaram de embarcar. Pequenos apicultores e cooperativas estão em alerta.
O Consórcio pode até tentar mostrar serviço agora, mas enfrenta o peso de uma pergunta central: qual foi o legado concreto e positivo desde sua criação? Onde estão os resultados palpáveis que justifiquem sua existência e a manutenção de sua estrutura?
No imaginário popular, a entidade ficou marcada como o “Clube do Pix”, símbolo de má gestão e desperdício em plena pandemia. Qualquer ação futura será julgada à sombra desse erro histórico.
Se o Consórcio Nordeste quer sair do estigma, precisa mais do que discursos. A reação ao tarifaço será seu teste de fogo: mostrar que pode articular políticas eficazes, proteger economias locais e abrir novos mercados.
Mas a dúvida permanece: o Consórcio será lembrado pela articulação diplomática de hoje ou continuará prisioneiro da tragédia dos respiradores de ontem?
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