
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, finalmente se manifestou sobre o tarifaço de 50% imposto pelo governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Mas a reação soa mais como remendo tardio do que como estratégia real de enfrentamento. “Nada do que foi anunciado não pode ser revisto”, disse Haddad, em tom de esperança. A fala, porém, chega quando o leite já está derramado: o decreto do presidente Donald Trump está assinado e pronto para entrar em vigor.
A grande questão é: por que o governo brasileiro não se antecipou? O aumento tarifário não caiu do céu. Desde abril, Washington vinha sinalizando com medidas protecionistas. Trump foi explícito em suas críticas ao governo Lula e chegou a justificar a decisão citando a “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula, por sua vez, optou por bravatas e ironias contra o republicano, desdenhando da ameaça tarifária. Haddad seguiu a mesma linha, apostando que os EUA não arriscariam prejudicar a própria economia. Erraram feio.
Agora, já com a medida oficializada, o ministro da Fazenda diz que vai “recorrer nas instâncias devidas, tanto nos EUA como em organismos internacionais” e que pretende se reunir com o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Mas a pergunta é: Bessent vai recebê-lo? Trump já deu sinais de que não pretende abrir diálogo com o governo Lula no curto prazo.
Pior são os argumentos usados por Haddad: “vamos sensibilizar que o tarifaço não interessa”. Ora, não interessa ao Brasil, é claro. Mas se Trump o impôs, é porque interessa politicamente e economicamente aos Estados Unidos. A retórica de Haddad soa fraca, quase ingênua, diante de um tabuleiro geopolítico onde pragmatismo sempre vence o sentimentalismo.
Outro ponto incômodo: Haddad e Lula insistem em reagir apenas contra os EUA. Mas, e o tarifaço de Nicolás Maduro contra o Brasil, que chega a 77% em alguns produtos? O governo petista vai recorrer também ou a seletividade política continuará blindando a Venezuela, vista como “aliada ideológica”? A omissão nesse caso expõe a incoerência da diplomacia lulista, que prefere o silêncio conveniente quando se trata de parceiros alinhados à sua narrativa.
A taxação de 50% atinge diretamente setores estratégicos da economia brasileira. Embora quase 700 produtos tenham sido poupados do tarifaço, as áreas impactadas concentram empregos e cadeias produtivas sensíveis. A promessa de que isso também afetará o “consumidor americano” não passa de autoengano. A força de consumo dos EUA permite absorver aumentos que, no Brasil, podem significar falência de exportadores.
A ofensiva tarifária americana é, sim, uma mensagem política direta: Washington não tem mais paciência para o tom agressivo de Lula e sua diplomacia de palanque. O governo brasileiro apostou em improviso, em desprezo às ameaças, e agora colhe o preço da passividade.
Haddad tenta vestir a fantasia de negociador tardio, mas a verdade é que sua fala expõe a vulnerabilidade do Brasil num momento em que as grandes potências não perdoam hesitação.
A pergunta que fica é: o governo Lula está preparado para enfrentar a realidade do comércio global ou continuará agindo com bravatas internas e subserviência seletiva externa?
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