
O relógio marcava 4h30 da madrugada deste domingo (27) quando mais uma tragédia escreveu seu nome em sangue nas estatísticas da BR-343, uma das rodovias federais mais perigosas do Piauí. Dois jovens - Fernando José dos Reis Cardoso, de 24 anos, e Célio Anderson Abreu, de 34 - morreram após uma colisão frontal entre o carro em que estavam e um ônibus interestadual da empresa Satélite.
Ambos voltavam de uma vaquejada em Campo Maior com destino a Nossa Senhora de Nazaré, onde residiam. Eles não chegaram em casa. A morte os alcançou na pista. Segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), o HB20 onde viajavam teria invadido a faixa contrária, colidindo de frente com o ônibus que saiu de Fortaleza e seguia para Teresina.
Fernando, o motorista, foi arremessado parcialmente para fora do carro; Anderson ficou preso às ferragens. Os dois morreram ainda no local, antes mesmo da chegada do resgate. O motorista do ônibus sofreu fraturas nas pernas e foi socorrido. Nenhum passageiro do coletivo ficou ferido.
A cena que se repetiu no km 252 da BR-343 não é nova. É apenas mais um episódio de uma rotina macabra que se repete com frequência alarmante em trechos específicos do interior do Piauí. Nesse ponto da rodovia, em especial, colisões frontais têm se tornado recorrentes. Por quê?
As causas se entrelaçam em uma teia de omissões e imprudências: excesso de velocidade, ingestão de álcool, fadiga, pistas estreitas, falta de sinalização, ausência de radares, veículos mal conservados, iluminação precária e fiscalização insuficiente. Em comum, quase todos esses fatores estão presentes nos acidentes mais fatais que têm ocorrido no Estado.
Fernando e Anderson retornavam de uma vaquejada - evento noturno, com música, bebida e euforia. É cedo para afirmar se havia ingestão alcoólica ou sono ao volante, mas o histórico das rodovias aponta para um padrão: jovens, em carros de passeio, voltando de festas na madrugada e se envolvendo em colisões frontais com caminhões ou ônibus.
A própria PRF já declarou, em outras ocasiões, que a maior parte dos acidentes fatais no interior do Piauí ocorre fora das áreas urbanas, nas primeiras horas do dia, e com vítimas de 18 a 35 anos - exatamente o perfil das vítimas desta tragédia.
A Prefeitura de Nossa Senhora de Nazaré decretou três dias de luto oficial, mas o decreto não basta para impedir que o próximo acidente aconteça no mesmo local. Faltam políticas públicas efetivas de prevenção. Falta engenharia de tráfego, planejamento rodoviário e uma estratégia mais firme de combate ao caos nas 10 estradas federais que cortam o Estado.
No caso do acidente deste domingo, a dinâmica ainda será investigada, mas a narrativa é dolorosamente conhecida. E fica a pergunta como alerta: quantos mais precisarão morrer para que se trate a crise nas rodovias do Piauí como prioridade?
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