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A Balsa do Sexo que não era sobre sexo: o experimento que expôs mais o criador do que os participantes

Em 1973 Santiago Genovés isolou 11 pessoas em uma balsa no Atlântico para estudar violência e poder. Mas o que emergiu foi a paciência coletiva — e a falha de um antropólogo que tentou controlar o incontrolável

27/07/2025 às 06h12
Por: Douglas Ferreira
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A barca utilizada na experiência antropológica “Casa sobre água” - Foto: Reprodução
A barca utilizada na experiência antropológica “Casa sobre água” - Foto: Reprodução

O que foi essa experiência?

Em maio de 1973, o antropólogo mexicano Santiago Genovés Tarazaga lançou a expedição denominada Acali (“casa sobre a água”, em náuatle). Ele reuniu 11 pessoas - cinco homens e seis mulheres - de diferentes nacionalidades, religiões e status sociais a bordo de uma balsa de 12 × 7 m sem motor nem privacidade, para uma viagem de 101 dias do arquipélago de Canárias até Cozumel, México. O objetivo: provocar conflitos e observar a violência e a sexualidade em um ambiente fechado e hostil.

A imprensa apelidou o experimento de “Balsa do Sexo”, criando manchetes sensacionalistas. Os jornalistas imaginaram orgias a bordo e festins sexuais - frequentemente baseados em rumores ou breves contatos por rádio, reforçando a narrativa de promiscuidade.

Quem foi Santiago Genovés?

Desde cedo Genovés se envolveu em expedições radicais - ele fez parte da tripulação das famosas travessias Ra de Thor Heyerdahl. Como antropólogo, voltou-se ao comportamento humano: sua hipótese era que a violência teria fortes vínculos com a sexualidade e a competição sexual, baseando-se em estudos com primatas.

Idealizador do “Peace Project”, ele planejou tudo nos mínimos detalhes - das seleções de voluntários até as tarefas rotineiras, muitas vezes usados para criar fricção: homens faziam os afazeres menos glamourosos enquanto mulheres ocupavam cargos de liderança - inclusive a capitã Maria Björnstam.

Os 11 participantes a bordo da balsa, com a capitã no meio - Foto: FASAD

O resultado foi o oposto do desejado

Contrariando expectativas, os conflitos não surgiram como previsto. O grupo permaneceu cooperativo, encontrou meios de sobreviver sem gerar violência. Genovés ficou frustrado e tentou induzir tensão — mas acabou se tornando o principal agente de desarmonia a bordo:

  • Após 51 dias, o antropólogo confessou que o único comportamento agressivo registrado foi o dele.

  • Houve momentos em que os tripulantes pensaram em matá-lo: “jogar no mar acidentalmente” ou injetar uma droga letal. Essa revolta silenciosa é narrada no documentário The Raft.

O experimento que ele chamou de “laboratório do comportamento humano” virou uma fábula de manipulação, empatia e poder invertido.

O que essa “balsa sem câmeras” nos revelou

1. Violência não é inevitável. O que Genovés esperava ver - ciúme sexual, brigas, lutas - jamais se materializou. A convivência provou ser possível mesmo sob condições extremas.

2. O pesquisador virou o objeto da pesquisa. Ao tentar forçar seus voluntários a agir conforme o roteiro esperado, Genovés perdeu autoridade e fugiu da sua própria hipótese, tornando-se o centro da tensão.

3. O mito supera a ciência. Sensacionalismo e rotulação pública transformaram o projeto em símbolo de sexo coletivo e caos moral — o que nunca ocorreu de fato. O experimento foi reinterpretado como entretenimento e não como reflexão sociológica.

A “Balsa do Sexo” nos desafia a olhar para o que nos cerca com menos suposições e mais humildade. Genovés saiu de lá com a convicção de que a violência humana é socialmente construída - não genética. E descobriu que o verdadeiro teste não era sobreviver no mar, mas resistir à ilusão de controle - inclusive sobre si mesmo.

Se o confinamento e a manipulação não geraram caos, mostrou-se que o poder é mais perigoso na mão de quem o quer impor do que na dos observados. Uma lição brutal sobre a arrogância científica e sobre o valor da convivência genuína.

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