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Agro MEL MADE IN BRAZIL

Tarifaço de Trump dá ferroada no mel brasileiro e ameaça liderança do Piauí no setor

Com 585 toneladas canceladas, Grupo Sama compara impacto ao da pandemia: “Estamos parados, sem saída”

21/07/2025 às 21h09 Atualizada em 21/07/2025 às 21h22
Por: Douglas Ferreira
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O setor da apicultura sofreu um duro golpe com o tarifaço americano - Foto: Reprodução
O setor da apicultura sofreu um duro golpe com o tarifaço americano - Foto: Reprodução

O setor melífero brasileiro levou uma ferroada amarga com a nova tarifa de 50% imposta pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros. No centro dessa crise, está o Estado do Piauí, maior produtor e exportador de mel do país, que agora vê seu posto ameaçado e um mercado que parecia consolidado desmoronar de um dia para o outro.

A decisão americana, que entra em vigor a partir de 1º agosto, já provocou o cancelamento imediato de 585 toneladas de mel orgânico que seriam exportadas pelo Grupo Sama, um dos maiores processadores e exportadores mundiais do produto, com sede em Oeiras, no centro Sul do Piauí, a 282 km de Teresina. Outras cooperativas e exportadores do Sul do Piauí também relatam prejuízos e negociações travadas.

“A tarifa dobra o custo do nosso mel, inviabiliza qualquer negociação com os americanos e, pior, joga a produção para dentro do país, onde o mercado interno não tem como absorver tudo isso”, disse ao Diário do Comércio o CEO do Grupo Sama, Samuel Araújo.

US$ 6 milhões a mais - e nada garantido

O impacto do tarifaço para a empresa já tem números concretos: a carga cancelada significaria cerca de US$ 6 milhões a mais em custos, segundo Araújo. Boa parte do mel já está armazenada em câmaras refrigeradas no porto do Pecém, no Ceará, e nos armazéns da empresa no Piauí - uma operação cara e insustentável a longo prazo.

Para piorar, outras 95 toneladas da cooperativa Casa Apis, no Sul do Estado, também tiveram contratos suspensos por compradores norte-americanos. E esse é só o início: estima-se que as exportações do Brasil para os EUA, que em 2023 somaram mais de 30 mil toneladas, sejam reduzidas pela metade caso o tarifaço não seja revertido.

“Estamos vivendo um impacto tão grande quanto o da pandemia. E sem nenhuma sinalização de solução por parte do governo brasileiro. Estamos parados, sem saída”, lamenta Araújo.

O Piauí e a cadeia do mel: um gigante ameaçado

O Piauí é responsável por quase 40% de toda a produção nacional de mel, sendo o maior exportador para os Estados Unidos, que são historicamente o maior mercado consumidor do produto brasileiro. A cadeia do mel no Estado sustenta cerca de 12 mil micro e pequenos produtores no semiárido nordestino, espalhados por Piauí, Maranhão, Ceará e Bahia, que vendem sua produção ao Grupo Sama e a outras processadoras.

Esses apicultores já enfrentam secas prolongadas e perdas climáticas - agora, o mercado externo praticamente se fecha, e a perspectiva de desemprego e endividamento no campo se torna uma ameaça real.

“É uma cadeia que gera renda para os mais pobres do semiárido, para agricultores familiares. Esse tarifaço atinge diretamente o trabalhador da ponta”, aponta a economista e pesquisadora do setor agrícola, Jussara Carvalho.

O governo assiste de camarote?

Em Brasília, a resposta do governo federal à crise tem sido burocrática e tímida. Até o momento, o Itamaraty apenas “manifestou preocupação” e prometeu abrir um canal diplomático para tentar negociar uma saída com Washington - mas nada além disso foi anunciado.

Entre os produtores, cresce a irritação com a falta de ação do Planalto: “Cadê a diplomacia brasileira para defender o que é nosso? Estão deixando um setor inteiro afundar sem qualquer reação”, disse um líder cooperativista sob anonimato.

Um símbolo de injustiça comercial

A nova tarifa é interpretada por analistas como parte da política protecionista agressiva de Trump em busca de apoio interno às custas do comércio internacional. “É uma retaliação disfarçada de proteção ao mercado americano, mas que atinge desproporcionalmente setores como o mel brasileiro, que sempre manteve padrões de qualidade e preços competitivos”, afirma a especialista em comércio exterior Silvia Ramos.

Os apicultores brasileiros veem no tarifaço um golpe desleal - e no silêncio do governo brasileiro, uma traição. O Brasil corre o risco de perder participação num mercado que levou décadas para conquistar e que hoje pode ser ocupado por concorrentes como México e Argentina.

E agora?

Algumas alternativas estão sendo avaliadas: tentar dividir o custo da tarifa com os importadores americanos, aumentar o preço do mel brasileiro em dólar para compensar, ou redirecionar parte da produção para a Europa e Ásia. Mas nada disso é simples nem imediato.

Enquanto isso, o mel brasileiro amarga nas câmaras frias - e o Piauí, símbolo da apicultura nacional, corre o risco de ver sua liderança derreter.

“O povo do semiárido sabe resistir à seca, mas não à indiferença do governo e à injustiça do mercado externo”, resume Araújo.

O Brasil precisa decidir se vai continuar aceitando a ferroada calado ou se vai reagir à altura para salvar um de seus setores mais emblemáticos.

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