
A nova tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto, não é apenas mais um capítulo nas tensões comerciais entre Brasília e Washington: é um terremoto para a fruticultura, a piscicultura e toda a cadeia de exportação do agro nacional. Mais do que isso, é um retrato da inação de um governo brasileiro que, diante do risco de colapso de setores inteiros, opta por esperar sentado.
Na prática, a nova tarifa torna economicamente inviável vender para os EUA - destino crucial de frutas tropicais, suco de laranja e tilápia brasileira. Em vez de gerar receita em dólar, os embarques se transformam em prejuízo imediato para produtores e exportadores. Estão parados nos portos mais de 77 mil toneladas de frutas, em contêineres que podem se perder ou desabar preços no mercado interno, caso despejados por aqui.
No caso das frutas, a manga é o símbolo do desastre: o Brasil exporta cerca de 36,8 mil toneladas para os EUA, concentradas justamente entre agosto e outubro, exatamente quando as novas tarifas entram em vigor. Uvas, açaí, abacaxi, melão e outras frutas tropicais também estão no radar do prejuízo.
O impacto na balança comercial será inevitável. Segundo a Abrafrutas, o segundo semestre - historicamente mais lucrativo para o setor - pode registrar um déficit inédito, com demissões em massa e retração de investimentos.
Para a piscicultura, o cenário não é menos dramático: em Rifaina, SP, uma empresa já suspendeu exportações de tilápia, prevendo prejuízos milionários e perda de espaço para concorrentes como Colômbia e Honduras, que seguem isentos de tarifas.
Ou seja: menos exportação, menos dólares, mais pressão sobre o real e mais desemprego no interior do país.
O tarifaço de Trump tem claro viés político-eleitoral: proteger produtores americanos e fazer barulho contra um Brasil que ele enxerga como pouco colaborativo em outros temas diplomáticos. É uma decisão unilateral, anunciada sem negociação prévia, como é característico do ex-presidente americano.
Pouco. Não há tempo hábil para redirecionar o volume gigantesco de frutas e peixes para outros mercados, como Europa e Ásia, que já têm seus fornecedores. A logística não comporta tamanha mudança repentina. E despejar no mercado interno significa derrubar preços e inviabilizar a cadeia produtiva.
Em suma: os produtores brasileiros só podem torcer para que Brasília aja.
Essa é a grande pergunta. O Itamaraty acena com uma “negociação emergencial” para adiar a tarifa por 90 dias, mas até agora nenhuma medida concreta foi anunciada. Há um evidente descompasso entre a gravidade do problema e a velocidade da diplomacia brasileira. Enquanto isso, a Casa Branca só ouve pressões de lobbies americanos - e ignora as consequências para um setor brasileiro que sustenta milhares de empregos.
O silêncio do Planalto diante da crise reforça a sensação de que a agricultura e a pesca de exportação não são prioridades para o atual governo.
Mais do que um embate pontual, a crise expõe a vulnerabilidade do Brasil em sua política comercial. Dependente de poucos mercados, sem estratégia para diversificar destinos ou agregar valor aos produtos, o país agora assiste impotente à sua fruticultura e piscicultura sangrarem diante de um tarifaço implacável.
No curto prazo, a expectativa é que os EUA recuem ou ao menos flexibilizem as tarifas após pressões do próprio varejo americano, que também depende das frutas e pescados brasileiros. No longo prazo, resta ao Brasil repensar sua diplomacia econômica, buscar novos acordos, abrir mercados e não tratar o agro exportador apenas como um “patinho feio” da política externa.
Enquanto isso, mangas apodrecem nos portos, peixes ficam presos nos contêineres e milhares de trabalhadores no campo se perguntam: o governo brasileiro está esperando o quê para agir?
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