
O fim de semana foi - e ainda promete ser - perturbador para o presidente Lula, para o alto escalão do Palácio do Planalto e também para os ministros do Supremo Tribunal Federal. Tudo porque, a partir desta segunda-feira (21), o governo Donald Trump deve anunciar novas sanções ao Brasil, endurecendo o tom contra o que Washington chama de “escalada autoritária e judicial” promovida pelo governo brasileiro e pelo STF.
O que exatamente virá pela frente ainda não se sabe - e é justamente esse o X da questão. Mas uma coisa parece certa: desta vez, não serão apenas palavras. Washington pode mirar a área econômica. E aí o resultado é imprevisível.
Nos bastidores, aliados de Bolsonaro foram informados pelo Departamento de Estado americano que a revogação dos vistos de Alexandre de Moraes e outros ministros foi apenas a primeira etapa. Entre as opções em estudo estão tarifas de importação elevadas para 100% sobre produtos brasileiros, punições coordenadas com países da Otan e, possivelmente, o enquadramento de ministros do STF na chamada Lei Magnitsky - um mecanismo americano que bloqueia ativos e impede transações financeiras de estrangeiros acusados de violações graves de direitos humanos.
Os políticos, agentes públicos e ministros sancionados pela Lei Magnitsky ficarão em verdadeiro ocaso, sem poder usar cartão de crédito, viajar, negociar com bancos; enfim, serão reduzidos a cidadãos de segunda classe. Acredite: quem for sancionado pelo governo americano, mesmo com as fortunas acumuladas, será obrigado a pagar até o pãozinho e o dindim em espécie.
O recado é claro: os Estados Unidos estão dispostos a usar seu peso econômico e diplomático para forçar uma mudança de postura no Brasil. Imagine só que vai ser necessário uma ação externa para que as autoridade brasileiras se emendem.
A reação do Planalto já começa a evidenciar o que se temia: Lula não tem muito o que oferecer em resposta. Até agora, limitou-se a dizer que as medidas americanas são “arbitrárias” e “inaceitáveis” - a mesma narrativa que antes criticava quando partia de Washington contra outros países. O presidente precisa virar o disco, esse lado está furado. O discurso desatualizado.
Foi o mesmo Lula que, dias atrás, disse que Trump “deveria governar os americanos” e “não se meter no Brasil”, agora reclamando de interferência americana. E que também ameaçou “medidas proporcionais” contra os EUA. Mas o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já levantou discretamente a bandeira branca, admitindo que qualquer retaliação brasileira seria mais ridícula do que eficaz. E de fato seria.
Como bem resumiu um diplomata ouvido pela imprensa: o Brasil está numa sinuca de bico. “Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come”. Não custa dizer que o "bicho" está com saúde e faminto.
Os números ajudam a entender a encrenca. Os EUA são hoje o segundo maior parceiro comercial do Brasil, destino fundamental de nossas exportações industriais e agrícolas. Perder esse mercado seria um desastre para a economia nacional - e um tiro no próprio pé de Lula. China e Índia já compram praticamente tudo que podem do Brasil, e os vizinhos latino-americanos não têm fôlego econômico para absorver nem uma fração significativa do que perderíamos. Sem contar que são literalmente "velhacos" e endividados com o Brasil até o último fio de cabelo.
No cerne da questão está a percepção americana de que Lula e o STF estão dobrando a aposta em um projeto autoritário disfarçado de justiça. Trump foi taxativo ao dizer que a operação da Polícia Federal contra Jair Bolsonaro, na sexta-feira (18), foi vista como “uma declaração de guerra” não só contra o ex-presidente brasileiro, mas contra os EUA.
Em nota à CNN, a Casa Branca afirmou que Bolsonaro e seus apoiadores são “alvo de um sistema judicial armado”, numa “caça às bruxas que não deveria estar acontecendo”. A propósito essa é a visão de boa parte do mundo hoje.
O cenário é difícil, mas não insolúvel. A diplomacia ainda pode tentar encontrar uma saída negociada. Mas isso exigiria, em primeiro lugar, humildade do presidente brasileiro - algo que ele até agora parece não ter demonstrado. Seria preciso reconhecer a gravidade do problema, baixar o tom das bravatas e dar um passo atrás para evitar que a corda se rompa definitivamente.
Se continuar esticando, Lula corre o risco não apenas de levar o Brasil a um isolamento internacional como não se via há décadas, mas também de fragilizar ainda mais sua base política interna. Que tal se inspirar em Raul Seixas e buscar o "cume calmo".
A hora é de menos discurso e mais diplomacia. Porque pedir “por favor” agora ainda é menos humilhante do que ter de implorar “pelo amor de Deus” mais tarde.
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