
O governo Lula decidiu dobrar a aposta contra Donald Trump. Nesta terça-feira (15), como já anteciparam o presidente e seu vice, Geraldo Alckmin, será publicado o decreto que aplica a chamada Lei da Reciprocidade para retaliar a taxação de 50% imposta pelos Estados Unidos aos produtos brasileiros. Na retórica, é uma resposta “proporcional e soberana” à ofensiva americana. Na prática, a pergunta que não quer calar é: o Brasil tem cacife para enfrentar seu maior parceiro comercial no Ocidente?
Ao longo do fim de semana, Lula e Alckmin bateram na tecla da reciprocidade. O vice, hoje, mais “vermelho” que muitos petistas históricos, prometeu que o Brasil não ficará inerte e devolverá “na mesma moeda” a medida unilateral de Trump. Mas será mesmo um bom negócio? Será mesmo inteligente atirar no próprio pé só para parecer altivo diante de um presidente americano beligerante?
É difícil encontrar um analista econômico ou um produtor rural que acredite que o Brasil saia ganhando em um confronto tarifário com os EUA. Os americanos têm mais mercado interno, mais reservas, mais opções para substituir fornecedores. Já o Brasil, cuja balança comercial é fortemente dependente do agronegócio e de commodities exportadas para o mercado norte-americano, tem muito mais a perder.
Se Trump decidir triplicar a aposta e impor mais barreiras, o Brasil terá para onde escoar sua soja, milho, proteínas animais, algodão, suco de laranja? Vai vender para a China e Índia, que tradicionalmente forçam preços para baixo? Ou para “companheiros” do BRICS como, Cuba e Venezuela - que devem ao Brasil “mundos e fundos” e não pagam?
Já há relatos de cargas de mel piauiense encalhadas no Porto de Pecém por incertezas de exportação. Mercadoria parada é perda na veia: produtor perde, câmbio perde, arrecadação perde. O prazo para que as tarifas de Trump entrem em vigor termina em 1º de agosto — e o Brasil, até agora, não articulou nada além de bravatas e um decreto de retaliação que pode piorar a situação.
Os exportadores brasileiros já sentem o peso do clima de incerteza: contratos suspensos, renegociações com margens reduzidas, sinais de desconfiança de importadores. As cadeias produtivas são complexas e lentas para se adaptar.
Há quem veja nessa reação brasileira um cálculo político-ideológico. Lula não quer parecer submisso a Trump e acredita que o Brasil pode liderar, junto ao BRICS, um contraponto à hegemonia americana. Mas isso é desejo ou realidade? A China, a Índia e os “companheiros” bolivarianos dificilmente vão comprar mais do Brasil apenas por solidariedade a Lula. São um bando de lisos. Vão, sim, tentar explorar preços mais baixos.
O governo aposta que a retaliação será suficiente para fazer Trump recuar. Mas se o republicano decidir escalar a disputa - como já fez antes -, o Brasil ficará encurralado.
No fim das contas, quem paga são os produtores rurais, a indústria nacional exportadora, os trabalhadores que dependem dessas cadeias produtivas. Para eles, o que menos importa é a retórica de soberania. Importa é ter mercado para vender sua produção a preços justos.
A nova Lei da Reciprocidade foi criada para dar ao Brasil instrumentos de reação a injustiças comerciais. Mas lei boa não substitui diplomacia eficiente, nem cálculo econômico. Um erro estratégico agora pode comprometer toda uma cadeia produtiva nos próximos anos.
Dobrar a aposta pode ser, de fato, “o começo do fim” para a competitividade brasileira no mercado americano. E não há garantias de que outros mercados absorvam nossa produção com as mesmas margens. O governo precisará muito mais do que bravatas para garantir que soja, milho, carnes, algodão e suco de laranja não fiquem encalhados em portos e aduanas enquanto os dias correm para 1º de agosto.
O Brasil tem escolha: diplomacia firme e pragmática, ou ideologia cega e retórica para a plateia. Só não pode esquecer que a conta sempre chega - e quem paga é quem produz.
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