
O espaço dedicado à série sobre os grandes juristas brasileiros - homens e mulheres -, que contribuíram para o avanço das ciências jurídicas e para a consolidação do Brasil como nação civilizada - traz neste domingo a saga histórica da primeira mulher advogada do país. Hoje, destacamos uma mulher que fez história. Uma mulher que verdadeiramente se empoderou: Esperança Garcia.
No sertão quente e esquecido do Piauí colonial, onde o silêncio era imposto como sentença e o açoite falava mais alto que a palavra, ergueu-se uma voz improvável - a de uma jovem negra, escravizada, mulher e invisível. Tinha nome de sentimento e alma de guerreira: Esperança Garcia.
Não usou armas, não fugiu, não gritou. Esperança empunhou uma pena. E com mãos feridas pelo trabalho forçado e coração esmagado pela separação de sua família, ela escreveu. Escreveu ao homem mais poderoso da província. Escreveu com firmeza, com clareza, com dor - e com fé. Sua carta, datada de 6 de setembro de 1770, atravessou mais de dois séculos como um grito abafado que, enfim, foi ouvido.
Naquele gesto singelo, estava a audácia de uma mulher que compreendia seu próprio valor, mesmo quando todos diziam que ela não valia nada. Ao invés de se esconder ou calar, Esperança denunciou os maus-tratos, exigiu seus direitos religiosos, clamou por sua família, pediu justiça para seu filho espancado. Seu texto é uma súplica, mas também uma sentença moral contra os senhores que se julgavam donos de vidas.
Como ousava uma mulher escrava escrever ao governador? Como sabia ela dos caminhos da fé, do direito, da resistência? Talvez tenha aprendido com os jesuítas. Talvez tenha sido ensinada pelo sofrimento. Talvez tenha nascido com a alma destinada à luta e à liberdade. O certo é que Esperança Garcia se tornou símbolo do que é ser advogado no sentido mais puro: defender os injustiçados, mesmo quando o mundo inteiro é contrário.
Séculos depois, quando sua carta foi redescoberta, ela já havia feito história. Hoje, Esperança não é apenas lembrada - é reverenciada. Em 2017, foi oficialmente reconhecida pela OAB/PI como a primeira mulher advogada do Brasil. E seu nome segue vivo, pulsando como bandeira de luta e coragem entre mulheres negras, juristas, estudantes e todos aqueles que acreditam na força transformadora da justiça.
Esperança foi a semente da resistência escrita. Cada linha sua brotou como uma lágrima que germina justiça. Quanta falta faz Esperança Garcia nos dias de hoje. Sim, porque os grilhões mudaram de forma, mas o povo piauiense - assim como o brasileiro - segue acorrentado por um poder opressor. Um poder ilegítimo por essência, pois seus mandantes, os senhores modernos, não têm qualquer vínculo real com a vontade do povo ou com a legitimidade da nação chamada Brasil.
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