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Quando falar outro idioma virou crime no Brasil

Durante o Estado Novo, imigrantes foram perseguidos e proibidos de usar suas línguas de origem

29/06/2025 às 10h31 Atualizada em 30/06/2025 às 10h06
Por: Wagner Albuquerque
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Getúlio Vargas - Foto: Reprodução
Getúlio Vargas - Foto: Reprodução

Pode parecer absurdo hoje em dia, quando se valoriza o aprendizado de idiomas estrangeiros e o resgate das tradições culturais, mas o Brasil já viveu um tempo em que falar outra língua — que não o português — podia levar à prisão. Entre 1937 e 1945, durante o regime autoritário do presidente Getúlio Vargas, foi instituída a chamada “Campanha de Nacionalização”, uma política que, sob o pretexto de fortalecer o patriotismo, restringia severamente a cultura dos imigrantes.

Inspirado pelo nacionalismo que também tomava conta da Europa, com líderes como Mussolini na Itália e Hitler na Alemanha, Vargas mirava diretamente nas comunidades de estrangeiros que haviam se estabelecido no Brasil, especialmente os italianos, alemães e japoneses. O governo passou a proibir o uso público de seus idiomas, o ensino em escolas comunitárias, a publicação de jornais nessas línguas e até mesmo conversas em família ou festas privadas em que se falasse algo que não fosse português.

Um recorte de jornal da época, divulgado por pesquisadores, revela o nível de controle imposto pelo Estado. Estrangeiros de países do Eixo eram obrigados a registrar sua residência e pedir autorização até para mudar de bairro. Reuniões, aniversários, discussões sobre política internacional ou mesmo o simples ato de viajar exigiam permissão prévia da polícia. Cantar hinos, fazer saudações típicas ou usar o idioma de origem também se tornaram atos proibidos por decreto.

Essas medidas atingiram duramente milhares de imigrantes e seus descendentes, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, onde comunidades inteiras foram silenciadas. Escolas bilíngues foram fechadas, livros queimados e rádios censurados. A repressão causou medo, apagamento cultural e marcou a memória de várias gerações, muitas das quais deixaram de ensinar seus filhos a língua dos antepassados por receio de perseguição.

Hoje, em tempos de valorização da diversidade e do multilinguismo, lembrar desse episódio ajuda a refletir sobre a importância da liberdade cultural e da tolerância. O Brasil, país moldado por povos de todo o mundo, já tentou negar parte de sua identidade. Felizmente, não conseguiu.

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