
Enquanto você dormia, um menino sonhava. Sonhava com uma bicicleta motorizada. Sonhava com liberdade. Sonhava com algo que talvez fosse pouco para muitos, mas era tudo para ele. Seu nome era David Kauan Silva da Costa. Tinha 12 anos. Estava coberto por papelão. Dormia no aterro sanitário do Angelim, zona Sul de Teresina. Ali, nesta madrugada de 22 de junho, a esperança de um garoto foi esmagada - literalmente - por um trator de 20 toneladas, em marcha à ré.
David saiu de casa escondido. Queria catar recicláveis para juntar dinheiro. Um gesto inocente, errado sim, mas honesto. Não foi roubar, não foi traficar, não foi pedir - foi trabalhar, como ouve dizer que se faz para conquistar algo.
Mas ali, entre o lixo da cidade, foi tratado como parte dele. Ninguém o viu. Nenhum alerta. Nenhuma cerca impediu a entrada. Nenhuma segurança eficaz. Nenhum sistema que protegesse um menino de 12 anos de morrer dormindo sob o ronco de uma máquina de concessão pública.
Segundo a Polícia Militar, o atropelamento aconteceu por volta das 2h30 da madrugada. O operador do trator, após a manobra fatal, deixou o local e só se apresentou mais tarde. Familiares relatam que David foi atingido na cintura enquanto dormia. Morreu ali mesmo, sozinho, silenciosamente, sob toneladas de aço e omissão.
A mãe, ao ser localizada, descobriu que o filho que pensava estar dormindo em casa, estava morto no lixão. Qual cena poderia ser mais devastadora do que essa?
A Prefeitura de Teresina, por meio da Eturb, alegou que o local possui segurança armada em três turnos. Mas não explicou como uma criança entra, se instala e dorme dentro do aterro sem ser vista por ninguém.
Mais grave: a nota oficial naturaliza a tragédia. Um “acidente”. Um “fato”. Uma “fatalidade”. Mas como chamar de fatalidade algo que poderia ter sido evitado com fiscalização real, humanidade, políticas sociais eficazes e uma rede mínima de proteção à infância?
David foi a óbito. E junto com ele, morreu também um pedaço do que ainda restava de dignidade pública no trato com os mais vulneráveis. A quem cabe essa responsabilidade?
Segundo a avó do menino, a mãe não permitia que ele fosse ao lixão. Mas David queria ter sua bicicleta. Queria ser “grande”. Queria ser útil. Queria fazer o certo - mesmo do jeito errado.
Dormia com papelão para escapar do frio. Morreu esmagado por um trator pago com dinheiro público. E agora, mais uma família pobre precisa fazer vaquinha solidária por PIX para conseguir enterrar o corpo da criança no seu município natal, Miguel Alves.
Que país é esse, onde os meninos são invisíveis até que morram, e só então viram manchete?
O operador do trator se apresentou. Pagou o caixão. Um gesto digno. Mas... isso basta?
E a empresa terceirizada? E a prefeitura? E o Ministério Público? E o Conselho Tutelar? E as promessas de campanha? E os direitos da criança e do adolescente? Onde estavam?
Será que só haverá responsabilização se houver gritaria? Ou vamos repetir a lógica perversa do Brasil: a culpa morre com o pobre, com o inocente.
David tinha planos. Ia à escola. Fazia capoeira. Era descrito como alegre, esforçado, educado. Não era “menino de rua”. Era menino da cidade. Era filho, neto, aluno, amigo. Agora, virou estatística. Virou revolta. Virou enterro sem recursos.
Se você não consegue se indignar com essa história, algo está errado. Não com David. Com você. Comigo. Com o sistema. Com o Brasil.
Ajude a família de David Kauan a levá-lo para casa.
PIX solidário: 86988924954 – Maria Albetiza Silva (avó).
DEGRADAÇÃO TOTAL? Desordenamento moral?
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