
Um peixe de origem amazônica, conhecido como pirarucu (Arapaima gigas), foi pescado no município de Malhada, no sudoeste da Bahia, levantando sérias preocupações ambientais. Com 92 quilos e 2,15 metros de comprimento, esse é o segundo exemplar capturado na região em pouco mais de um mês. O primeiro, de 80 quilos e 2,2 metros, foi pescado em abril na região do Quilombo do Pau D’Arco, no rio São Francisco.
O segundo exemplar foi retirado da Lagoa do Mucambo, o que sugere que o pirarucu está se espalhando por rios e lagoas da bacia do São Francisco. A ocorrência consecutiva dessa espécie em um intervalo tão curto de tempo levanta uma série de questionamentos: como esse peixe, típico da Amazônia, chegou à Bahia? Teria sido introduzido pelo homem? Ele se adaptou ao novo ambiente? E, mais importante: quais os impactos ambientais dessa presença?
O pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo, podendo ultrapassar os 3 metros de comprimento e pesar até 200 quilos. É uma espécie carnívora e voraz, que se alimenta de peixes, crustáceos e pequenos animais aquáticos. No seu habitat natural, há equilíbrio ecológico porque há predadores e competição por alimento. Fora da Amazônia, porém, esse equilíbrio é rompido.
Especialistas alertam que o pirarucu, sendo uma espécie exótica nos rios da Bahia, pode provocar sérios impactos na fauna local. Ele compete com espécies nativas por alimento, pode dizimar populações inteiras de peixes menores e romper cadeias alimentares, prejudicando o equilíbrio ecológico. Além disso, a ausência de predadores naturais permite que ele se multiplique sem controle.
Segundo o biólogo Carlos Eduardo Pinheiro, “a introdução de uma espécie como o pirarucu em novos ambientes pode parecer curiosa ou até empolgante para pescadores, mas do ponto de vista ambiental, é perigosa. Essa espécie pode gerar desequilíbrios profundos, principalmente em bacias hidrográficas sensíveis como a do São Francisco”.
A presença do pirarucu fora da Amazônia não é inédita. Em 2022, peixes da mesma espécie foram pescados no Rio Grande, na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Na maioria dos casos, os especialistas apontam para a hipótese de introdução humana: seja por criadores de peixes que soltam os animais acidentalmente ou de forma deliberada para pesca esportiva ou comercial.
No caso da Bahia, ainda não há confirmação sobre a origem dos pirarucus. No entanto, há suspeitas de que tenham sido criados em cativeiro e, por alguma razão, escapado ou sido soltos nos corpos d’água da região.
Além do risco ambiental, a presença do pirarucu também pode impactar economicamente a pesca artesanal e a biodiversidade do rio São Francisco. “Espécies nativas como o surubim e o pacamã correm risco, o que afeta também a base econômica de famílias que dependem da pesca”, alerta o engenheiro ambiental Luiz Fernandes.
Por outro lado, o peixe gigante atrai curiosidade. A pesca recente mobilizou moradores e virou assunto nas redes sociais. O grupo de pescadores responsáveis pela captura do segundo exemplar pretende vender o animal. Porém, especialistas pedem cautela: "o fascínio pelo tamanho do peixe não pode sobrepor a preocupação com a sustentabilidade do ecossistema", reforça Fernandes.
Diante da recorrência dessas ocorrências, pesquisadores e ambientalistas pedem que o Ibama e órgãos ambientais estaduais monitorem os rios da bacia do São Francisco, investiguem a origem dos pirarucus e, se necessário, adotem medidas de contenção da espécie.
“Ainda dá tempo de evitar um desastre ambiental. Mas é preciso agir rápido. Não podemos repetir os erros cometidos em outros biomas do Brasil com espécies invasoras”, conclui o biólogo Carlos Eduardo.
O caso do pirarucu na Bahia serve como alerta: a introdução de espécies exóticas, mesmo quando não intencional, pode ter consequências graves e duradouras para o meio ambiente.
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