
Mais uma vez, somos confrontados por fatos que tornam inegável a sensação de que "algo de errado não está certo" no Brasil. Parafraseando Shakespeare, há algo de profundamente podre no reino brasileiro, e os exemplos se acumulam como provas vivas da corrupção moral e institucional que corrói as estruturas da nossa sociedade.
A célebre frase de Hamlet - “há algo de podre no reino da Dinamarca” - referia-se a um ambiente dominado por traições, assassinatos e dissimulações. No Brasil, o roteiro é diferente apenas no idioma. Por aqui, vivemos uma tragicomédia em que criminosos processam vítimas, juízes relativizam o crime organizado, e o sistema de justiça parece ter perdido completamente o senso de proporção, de urgência e, sobretudo, de justiça.
O caso do empresário envolvido até o pescoço em um esquema bilionário de corrupção no INSS é emblemático. Em vez de se preocupar com os crimes de que é acusado, o que incomoda - Antônio Carlos Camilo Antunes -, é ser chamado de "Careca do INSS". Não se ofende por ser apontado como criminoso, mas por uma alcunha relacionada à aparência, ele é careca. É o retrato fiel de uma sociedade em que o moralmente inadmissível passa a ser tolerado - desde que se use as palavras certas para nomeá-lo.
Mais revoltante ainda é o caso de Misael Bispo, condenado em três instâncias por assassinar a ex-companheira. Agora, ele quer processar o deputado Márcio Nakashima, irmão da vítima, por calúnia, injúria e difamação - por tê-lo chamado de “assassino”. A acusação não é falsa, nem exagerada: é a realidade, atestada pela Justiça. E, mesmo assim, ele encontra brecha para recorrer ao sistema judiciário. Que tipo de distorção institucional permite que um homicida condenado use o Judiciário contra os familiares da própria vítima?
Como se não bastasse, o desembargador João Guilherme Lages Mendes - ex-presidente do TJ do Amapá -, afirma em tom de julgamento moral que "o tráfico não causa intranquilidade; o que intranquiliza é a polícia". Uma inversão de valores tão grotesca que nem precisaria de comentários - mas que, inacreditavelmente, passa em branco na mídia e não desperta reações de entidades judiciais, como o CNJ, a ABI ou a OAB. Desde quando o braço armado do crime organizado causa menos inquietação social do que aqueles que, apesar de todos os problemas da segurança pública, tentam manter a ordem?
Esse tipo de distorção revela uma crise de identidade no sistema de Justiça brasileiro. É legítimo perguntar: qual o papel da Justiça? Proteger o direito dos cidadãos ou servir de palco para o teatro do absurdo, onde criminosos se fazem de vítimas e autoridades relativizam o crime?
Processos assim não são apenas infundados - são exemplos claros de litigância de má fé e deviam ser recusados de imediato, com sanções aos autores. No entanto, seguem tramitando, entulhando os tribunais e contribuindo para a lentidão da Justiça brasileira, uma das mais morosas do mundo.
Casos como esses geram não apenas indignação, mas medo. Medo de que a Justiça se torne uma ferramenta nas mãos de quem a distorce. Medo de que, ao invés de proteger os inocentes, ela se torne instrumento de perseguição. Medo de que qualquer cidadão possa ser arrastado para um tribunal apenas por dizer a verdade, enquanto quem cometeu crimes graves goza de todos os recursos - e mais alguns - para tentar reverter o irreversível.
A sensação de impotência diante de decisões tão esdrúxulas e injustas revela que o problema não está em uma ou outra figura isolada, mas em todo um sistema disfuncional, onde o rigor da lei recai com mais força sobre quem denuncia do que sobre quem comete o crime. Quando o absurdo se torna rotina, a frase de Shakespeare não soa mais como metáfora literária - mas como diagnóstico político-social: sim, há algo de podre no reino do Brasil.
E o pior é que todos veem, mas poucos enxergam e reagem. Até quando?
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