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“Há algo de podre no reino do Brasil”: quando a inversão de valores vira regra

Decisões judiciais absurdas, criminosos processando vítimas e silêncio institucional mostram que a justiça brasileira vive sua própria tragédia shakespeariana

30/05/2025 às 09h11 Atualizada em 30/05/2025 às 17h15
Por: Douglas Ferreira
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As declarações do desembargador João Lages chocam o Brasil - Foto: Reprodução
As declarações do desembargador João Lages chocam o Brasil - Foto: Reprodução

Mais uma vez, somos confrontados por fatos que tornam inegável a sensação de que "algo de errado não está certo" no Brasil. Parafraseando Shakespeare, há algo de profundamente podre no reino brasileiro, e os exemplos se acumulam como provas vivas da corrupção moral e institucional que corrói as estruturas da nossa sociedade.

A célebre frase de Hamlet - “há algo de podre no reino da Dinamarca” - referia-se a um ambiente dominado por traições, assassinatos e dissimulações. No Brasil, o roteiro é diferente apenas no idioma. Por aqui, vivemos uma tragicomédia em que criminosos processam vítimas, juízes relativizam o crime organizado, e o sistema de justiça parece ter perdido completamente o senso de proporção, de urgência e, sobretudo, de justiça.

Criminosos indignados... com apelidos

O caso do empresário envolvido até o pescoço em um esquema bilionário de corrupção no INSS é emblemático. Em vez de se preocupar com os crimes de que é acusado, o que incomoda - Antônio Carlos Camilo Antunes -, é ser chamado de "Careca do INSS". Não se ofende por ser apontado como criminoso, mas por uma alcunha relacionada à aparência, ele é careca. É o retrato fiel de uma sociedade em que o moralmente inadmissível passa a ser tolerado - desde que se use as palavras certas para nomeá-lo.

Assassino processa irmão da vítima

Mais revoltante ainda é o caso de Misael Bispo, condenado em três instâncias por assassinar a ex-companheira. Agora, ele quer processar o deputado Márcio Nakashima, irmão da vítima, por calúnia, injúria e difamação - por tê-lo chamado de “assassino”. A acusação não é falsa, nem exagerada: é a realidade, atestada pela Justiça. E, mesmo assim, ele encontra brecha para recorrer ao sistema judiciário. Que tipo de distorção institucional permite que um homicida condenado use o Judiciário contra os familiares da própria vítima?

Quando o tráfico “não causa intranquilidade”

Como se não bastasse, o desembargador João Guilherme Lages Mendes - ex-presidente do TJ do Amapá -, afirma em tom de julgamento moral que "o tráfico não causa intranquilidade; o que intranquiliza é a polícia". Uma inversão de valores tão grotesca que nem precisaria de comentários - mas que, inacreditavelmente, passa em branco na mídia e não desperta reações de entidades judiciais, como o CNJ, a ABI ou a OAB. Desde quando o braço armado do crime organizado causa menos inquietação social do que aqueles que, apesar de todos os problemas da segurança pública, tentam manter a ordem?

Um Judiciário adoecido?

Esse tipo de distorção revela uma crise de identidade no sistema de Justiça brasileiro. É legítimo perguntar: qual o papel da Justiça? Proteger o direito dos cidadãos ou servir de palco para o teatro do absurdo, onde criminosos se fazem de vítimas e autoridades relativizam o crime?

Processos assim não são apenas infundados - são exemplos claros de litigância de má fé e deviam ser recusados de imediato, com sanções aos autores. No entanto, seguem tramitando, entulhando os tribunais e contribuindo para a lentidão da Justiça brasileira, uma das mais morosas do mundo.

Quando o sistema se volta contra os inocentes

Casos como esses geram não apenas indignação, mas medo. Medo de que a Justiça se torne uma ferramenta nas mãos de quem a distorce. Medo de que, ao invés de proteger os inocentes, ela se torne instrumento de perseguição. Medo de que qualquer cidadão possa ser arrastado para um tribunal apenas por dizer a verdade, enquanto quem cometeu crimes graves goza de todos os recursos - e mais alguns - para tentar reverter o irreversível.

Afinal, que país é este?

A sensação de impotência diante de decisões tão esdrúxulas e injustas revela que o problema não está em uma ou outra figura isolada, mas em todo um sistema disfuncional, onde o rigor da lei recai com mais força sobre quem denuncia do que sobre quem comete o crime. Quando o absurdo se torna rotina, a frase de Shakespeare não soa mais como metáfora literária - mas como diagnóstico político-social: sim, há algo de podre no reino do Brasil.

E o pior é que todos veem, mas poucos enxergam e reagem. Até quando?

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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