
Nenhum agente de viagens do Piauí voa mais que Rafael Fonteles. Nenhum comissário de bordo ou piloto de Boeing consegue acompanhar o ritmo aéreo do governador. Já se tornou piada entre os bastidores políticos: “quando há notícia de queda de avião em algum lugar do mundo, a primeira coisa que vem à cabeça é: tomara que não seja o do governador Rafael Fonteles.” A ironia arranca risos, mas o fundo da crítica é sério: as viagens internacionais do chefe do Executivo estadual têm se multiplicado, mas os resultados continuam escassos.
É bom lembrar que voar não é crime, tampouco pecaminoso. Governadores devem, sim, buscar investimentos, conhecer experiências e ampliar o raio de influência do Estado. O problema está no desequilíbrio entre os gastos públicos e o retorno real dessas agendas. Fonteles já soma 14 viagens internacionais - uma média de uma viagem a cada dois mês. Na teoria, são reuniões com empresários e autoridades. Na prática? Nenhum contrato assinado, nenhum dólar, euro, yuan ou rial catarense confirmado como investimento. Só o nosso suado real que vai embora.
O mais recente roteiro do governador incluiu Doha, no Catar, onde apresentou 16 projetos do Consórcio Nordeste durante o evento "Nordeste Day". Foram expostos cinco eixos estratégicos: transição energética, infraestrutura, agroindústria, turismo e economia digital. Fonteles falou bem, como sempre. Mostrou os diferenciais do Nordeste: matriz energética limpa, localização privilegiada, estabilidade institucional. O público presente incluía empresários dos setores de energia, imóveis, transportes, agronegócio e bancos. Tudo muito bonito no papel.
Mas o Piauí não vive de apresentações, precisa de ação. Com todo respeito, PowerPoint não enche barriga, nem reduz desigualdade. O que o povo quer são obras, empregos, tijolos, cimento, cal e concreto. Quer ver indústrias sendo instaladas, galpões levantados, linhas de produção em funcionamento. E isso, até agora, não aconteceu.
A Investe Piauí, agência de atração de investimentos do Estado, parece estar em sua própria excursão global. Foram abertos escritórios internacionais em Tallinn (Estônia), Lisboa (Portugal), Boston (EUA) e está em fase de implantação uma unidade em Xiamen, na China. O discurso é sempre o mesmo: “fortalecer as relações comerciais”.
Mas, até agora, qual resultado prático justifica esses gastos? Algum contrato assinado? Algum investimento já em implantação? Ou ainda estamos no estágio eterno dos “protocolos de intenções”? Porque para manter estruturas internacionais com dinheiro público, precisamos muito mais do que boas intenções.
Aliás, até quando esses escritórios internacionais vão existir sem justificativa concreta? Qual o custo mensal? Quais os salários pagos? Quantas empresas esses escritórios trouxeram para o Piauí? Nenhuma dessas perguntas tem resposta clara.
O governador Rafael Fonteles pode até ser um bom garoto-propaganda do Estado, mas propaganda sem entrega vira ilusão. Enquanto ele multiplica reuniões em salas climatizadas do outro lado do mundo, as finanças do Piauí enfrentam sua pior crise em décadas. Municípios sofrem com atraso de repasses, obras paradas e hospitais em colapso. O que se cobra do governo não é menos entusiasmo, mas mais pragmatismo e resultados concretos.
Viagens internacionais são importantes, mas não podem se transformar em turismo institucional. A imagem do Piauí não se constrói apenas com discursos, mas com ações que gerem emprego, renda e melhoria de vida. O povo quer saber: quando os milhões investidos nessas viagens começarão a retornar em benefício do Estado e do povo piauiense?
Conclusão:
Rafael Fonteles precisa entender que não governa uma companhia aérea, e sim um dos Estados mais pobres do Brasil. Se quiser continuar voando alto, terá que aterrissar com investimentos reais, e não só com discursos bem elaborados. Caso contrário, suas viagens entrarão para a história como milhas perdidas - e o Piauí como um passageiro esquecido na sala de embarque do desenvolvimento.
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