
A expansão das facções criminosas no Brasil já ultrapassou há tempos os limites dos presídios e das bocas de fumo. Depois de infiltrar o setor de transporte coletico em várias capitais e cidades do interior, os grandes grupos criminosos passaram a investir em atividades econômicas de fachada para lavar dinheiro do narcotráfico, expandir influência e se consolidar como “empresários” nas sombras.
Um dos alvos mais recentes é o setor de combustíveis, um dos mais restritos, regulados e concentrados da economia brasileira - o que, paradoxalmente, não impediu a penetração do crime. Segundo levantamento do setor, divulgado pelo portal R7 e pela Folha de S.Paulo, 941 postos de combustíveis estão sob o controle de facções criminosas no país. No Piauí, são 25.
A infiltração ocorre principalmente por meio de laranjas, empresas de fachada, compra de participações societárias disfarçadas, e até cooptação de empresários em dificuldades financeiras. Com isso, o crime se esconde por trás de negócios aparentemente legais e aproveita a fragilidade fiscalizatória e a concentração de poder econômico no setor.
Além disso, o próprio modelo de negócio - com grande fluxo de caixa, operação com dinheiro em espécie e facilidade de distribuição - é ideal para lavagem de dinheiro oriundo do tráfico de drogas, extorsão e contrabando.
As principais organizações criminosas infiltradas no setor são as mesmas que dominam o narcotráfico e o sistema prisional:
Primeiro Comando da Capital (PCC)
Comando Vermelho (CV)
Família do Norte (FDN)
Guardiões do Estado (GDE), entre outras regionais
Segundo o especialista em segurança pública Welliton Caixeta Maciel, “o que vemos é uma adaptação do crime organizado às oportunidades de mercado. Eles se aproveitam da fragilidade da fiscalização e da potencialidade de capilaridade dos postos, que se espalham por todo o território nacional, inclusive em cidades pequenas e em rodovias estratégicas”.
O levantamento revelou a seguinte distribuição nacional dos postos dominados por facções:
São Paulo: 290 postos
Goiás: 163 postos
Rio de Janeiro: 146 postos
Bahia: 103 postos
Piauí: 25 postos
O Brasil conta hoje com cerca de 42 mil postos de combustíveis registrados, o que significa que mais de 2% do setor pode estar sob influência direta ou indireta do crime organizado.
Embora o Piauí ainda não tenha registrado infiltrações como as do Ceará - onde uma facção chegou a incendiar unidades móveis de operadoras de internet para tomar controle da infraestrutura - o alerta está aceso. O Estado já contabiliza 25 postos com indícios de ligação com o narcotráfico, segundo o levantamento.
Entre os indícios considerados estão:
Participações de ex-presidiários ou indivíduos com passagem pela polícia na sociedade das empresas
Fluxo atípico de capital
Proximidade com áreas dominadas por facções
Utilização de laranjas em contratos e licenças
A situação é preocupante e, segundo analistas, deveria mobilizar órgãos como o Ministério Público, a Polícia Federal, a Receita Estadual e a Agência Nacional do Petróleo - ANP, pois trata-se de um setor estratégico tanto para a economia quanto para a segurança pública.
A infiltração criminosa também provoca a saída de empresários legítimos do setor. “É impossível competir com quem opera à margem da lei, não paga impostos, tem acesso a capital ilícito e conta com proteção armada”, relatou um dono de posto do interior nordestino sob anonimato.
Enquanto isso, a falta de repressão firme por parte dos entes fiscalizadores e da Justiça só fortalece a percepção de que o dinheiro do crime está vencendo o jogo.
Conclusão:
A ocupação de setores legais da economia por facções criminosas é um dos maiores desafios da segurança pública brasileira. Combater essa infiltração exige não só repressão policial, mas ação coordenada entre Ministério Público, Receita Federal, ANP e agências de inteligência, para impedir que o crime organizado se travista de empresário - e domine, com aparência legal, os pilares da economia nacional.
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