
Nos bastidores do maior escândalo de corrupção já registrado no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), um nome discreto, mas simbolicamente explosivo, voltou ao noticiário: José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula e diretor do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi) - uma das entidades investigadas por fraudes milionárias contra beneficiários do sistema previdenciário.
Frei Chico, de 83 anos, é um veterano do sindicalismo e da história política da esquerda brasileira. Foi ele quem apresentou o sindicalismo ao jovem metalúrgico que viria a se tornar presidente da República. No entanto, sua trajetória, embora marcada por episódios heroicos, como a prisão durante o regime militar em 1975, tem sido sistematicamente manchada por escândalos e relações controversas com núcleos corruptos de poder.
O Sindnapi, onde Frei Chico ocupa o posto de vice-presidente, foi alvo de busca e apreensão pela Polícia Federal no bojo da Operação Sem Custo, que investiga uma rede nacional de descontos indevidos aplicados a aposentados - em conluio com servidores do INSS e entidades de fachada. A fraude, segundo a PF, lesou diretamente mais de 6 milhões de beneficiários, com prejuízos que superam R$ 6,3 milhões apenas no início das apurações.
Embora Frei Chico não seja, neste momento, formalmente investigado, a posição de comando que exerce na entidade o torna, no mínimo, responsável político e administrativo. É a repetição de uma velha fórmula: figuras próximas ao poder central que, mesmo quando não são protagonistas da corrupção, orbitam escândalos como satélites silenciosos - mas sempre presentes.
Não é a primeira vez. Em 2019, o Ministério Público Federal denunciou Frei Chico na Lava Jato por ter recebido R$ 1,1 milhão da Odebrecht entre 2003 e 2015. Segundo o MPF, os pagamentos se estenderam mesmo após a formalização de qualquer serviço, o que levou os investigadores a apontarem "pagamento de mesada" em troca de interlocução com Lula. A ação foi rejeitada pela Justiça, mas o episódio deixou rastro de desconfiança e associou definitivamente seu nome ao caixa-preta dos bastidores petistas.
Agora, seu retorno ao noticiário reaquece um incômodo histórico: a promiscuidade entre sindicatos, partidos e estruturas de poder estatal. O Sindnapi, que deveria defender os aposentados, aparece como coadjuvante de uma engrenagem que saqueava seus contracheques. Frei Chico, mesmo sob a aura de velho combatente do período militar, passa a ser lembrado menos como símbolo de resistência e mais como figura reincidente em escândalos.
A nota oficial do sindicato fala em defesa da justiça e da solidariedade. Frei Chico, em entrevista, diz estar “tranquilo”. Mas o que fica é o silêncio incômodo diante do prejuízo imposto aos aposentados. Nenhuma palavra pública em defesa das vítimas. Nenhuma indignação com a estrutura criminosa que cresceu dentro do sindicato que ele ajuda a dirigir. É como se a responsabilidade moral tivesse sido aposentada também.
Mais uma vez, a imagem do “irmão do presidente” é usada como biombo, escudo e verniz. O país, no entanto, está cansado de escudos. Quer justiça - inclusive para aqueles que se acham intocáveis por vínculos de sangue ou luta histórica.
O drama do INSS não é apenas o de uma fraude. É o retrato de um sistema onde até quem um dia foi perseguido pelo Estado hoje compactua, por ação ou omissão, com esquemas que humilham os mais pobres. E nesse retrato, Frei Chico não é um detalhe. É um personagem central.
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