
O ministro da Previdência Social, Carlos Lupi, tenta se desvencilhar das acusações de omissão diante da maior fraude já descoberta nos descontos de benefícios do INSS, mas os fatos mostram o contrário. Apesar de afirmar que "não é Deus" e que "tentou resolver" o problema, atas de reuniões oficiais comprovam que o ministro foi alertado sobre as irregularidades ainda em junho de 2023 - e nada de efetivo fez por quase um ano.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Lupi negou inação e culpou administrações anteriores pelas fraudes que lesaram aposentados e pensionistas em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O ministro também alegou complexidade no sistema previdenciário para justificar a demora nas providências. Como resposta concreta, citou apenas a demissão do então diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis, em 2024, por não apresentar relatórios de auditoria.
No entanto, a realidade é que não houve descredenciamento de sindicatos suspeitos, não foi aberta sindicância interna no Ministério da Previdência logo após o alerta, e nenhum pedido formal de investigação à Polícia Federal partiu diretamente do ministro antes do escândalo explodir publicamente. A ação só veio após a Controladoria-Geral da União (CGU) e a própria Polícia Federal iniciarem, de forma independente, a operação Sem Desconto.
As atas do Conselho Nacional de Previdência Social, obtidas pelo Jornal Nacional, mostram que, em 12 de junho de 2023, a conselheira Tonia Galleti pediu que o tema dos descontos fraudulentos fosse incluído na pauta das reuniões. Lupi negou o pedido, alegando que um levantamento mais detalhado seria necessário antes de discutir o problema. Nada foi feito de imediato. O tema só voltou ao debate em abril de 2024, quando o escândalo já era irreversível.
Além da omissão, Lupi tem uma trajetória controversa: já exonerado do cargo de ministro do Trabalho, em 2011 no governo Dilma Rousseff, por envolvimento com ONGs e possui um histórico de proximidade política com esquemas duvidosos. Não é preciso ser Deus - nem vidente - para saber que problemas estruturais e práticas irregulares se multiplicavam em sua pasta. E mais: não há registro de que o ministro tenha tomado iniciativa concreta para blindar aposentados e pensionistas, mesmo diante de alertas formais.
Agora, enquanto o Ministério da Previdência tenta apagar o incêndio, a sangria no bolso dos mais vulneráveis já atingiu mais de 6 milhões de brasileiros, em um escândalo que atinge o coração da confiança pública no INSS.
Carlos Lupi pode até não ser Deus, como gosta de dizer. Mas, ao que tudo indica, foi humano demais nas escolhas políticas - e omisso demais no dever de proteger quem mais precisa.
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