
Na guerra comercial em que Trump atira para todos os lados, até a carne bovina brasileira virou alvo. A nova tarifa imposta pelos Estados Unidos - um acréscimo de 10% sobre os 26,4% já cobrados fora da cota isenta - elevou a taxação para 36,4%. Um tarifaço, no papel. Mas na prática? Nada que vá frear o apetite americano pelo bife made in Brazil. E os motivos são bem mais econômicos que diplomáticos.
A primeira explicação está na própria economia americana. Com os rebanhos encolhidos, os preços do gado local estão em níveis históricos - dobraram em relação aos valores no Brasil. Resultado? Mesmo com o novo imposto, a carne brasileira continua mais barata e competitiva para os importadores americanos. Ou seja, os EUA pagam mais pela carne nacional, mas ainda pagam menos do que gastariam com a produção interna.
A cota de 65 mil toneladas livres de imposto, que normalmente leva meses para ser preenchida, foi zerada em duas semanas em 2025. Isso nunca havia acontecido. É um indicativo claro de que a demanda está tão alta que o mercado norte-americano engole a carne brasileira mesmo quando o custo aumenta.
Quem vai pagar a conta? O consumidor nos EUA. O importador absorve o custo extra e repassa no preço final. Mas, com a carne americana em escassez e a australiana enfrentando seus próprios desafios, a carne brasileira continua sendo um mal necessário - e competitivo.
Enquanto os EUA lidam com seca e redução dos estoques, o Brasil está em outra rotação. Só o Mato Grosso tem oferta suficiente para sustentar o aumento da demanda. E com um dólar forte, o produtor brasileiro tem estímulo para continuar exportando, mesmo com tarifa.
Pequim recentemente suspendeu o registro de diversas plantas frigoríficas americanas. Quem ocupa esse vácuo? Austrália e Brasil. Ou seja, se os EUA apertarem demais, os frigoríficos brasileiros apenas redirecionam seus embarques para outro gigante consumidor de carne.
No primeiro trimestre, as exportações brasileiras para os EUA cresceram 67% em valor, chegando a US$ 557 milhões. O preço por tonelada também subiu: de US$ 2.943 para US$ 3.384. Mesmo com mais imposto, o Brasil está vendendo mais e melhor.
Resumo da ópera: o tarifaço de Trump tem mais efeito retórico do que prático. A carne brasileira é hoje quase uma commodity estratégica: barata, abundante, confiável. E num mundo em que escassez virou norma, quem tem carne na prateleira dita o jogo — com ou sem tarifa.
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