
O caso ocorrido em Baturité, no Ceará, é mais do que uma simples “atividade de criatividade escolar que deu errado”. É um retrato perturbador, sombrio e revelador da presença corrosiva do crime organizado na vida cotidiana das comunidades brasileiras - e, pior, dentro das escolas.
Durante uma aula de artes em uma escola pública, alunos entre 8 e 10 anos construíram, por iniciativa própria, armas de papelão com símbolos de facções criminosas. Um gesto que à primeira vista pode parecer uma brincadeira infantil, mas que na verdade expõe uma verdade brutal: essas crianças estão sendo criadas sob o domínio cultural e territorial do crime.
Para o psicólogo Carlos Aragão, isso representa a “'falência ou colapso' do Estado brasileiro, especialmente a 'falência ou colapso moral'. Já temos algumas gerações nascidas e criadas em contexto de pobreza, educação paupérrima e imersas na cultura da violência. A cada uma que chega, a situação só piora. Eu gostaria de enxergar e poder falar que tudo isso vai melhorar".
Não se trata de um caso isolado. O que vimos em Baturité acontece em todo o Brasil, com intensidade ainda maior no Nordeste, onde o avanço das facções encontrou terreno fértil em meio à omissão do Estado e à normalização da violência. Onde o crime dita as regras, o poder público silencia. E onde o poder público silencia, os criminosos falam mais alto.
"Em muitas cidades no Brasil, as forças de segurança não entram em determinadas comunidades. Bastaria esse dado para justificar porque não vejo um sinal de que essa situação não vai melhorar por um longo tempo. Infelizmente", revela o pscólogo.
Nas periferias dominadas pelo tráfico, os chefes de facção são os “referenciais de sucesso”. Armados, temidos, respeitados por uns, idolatrados por outros. São eles quem oferecem aos jovens o que o Estado nunca entregou: identidade, poder, pertencimento - ainda que isso venha atrelado à violência, à exploração e à morte.
"As crianças, desde cedo, são expostas a uma realidade dominada pela violência e pela criminalidade, onde armas e símbolos de facções deixam de ser tabu e se tornam parte do cotidiano, até mesmo nas escolas. Essa presença perversa, mas tolerada, do crime organizado no Brasil é uma das causas da inversão de valores facilmente observada, em que chefes de facção criminosa são vistos como modelos de sucesso, riqueza, poder, status social", assevera Aragão.
O resultado? Crianças que reproduzem falas, gírias e trejeitos do mundo do crime. Que desenham armas com precisão. Que sabem o nome das facções mais famosas, seus códigos, seus símbolos. Que não sonham mais em ser médicos, engenheiros ou professores - mas em portar uma Glock, comandar um morro, ou pilotar uma moto com giroflex improvisado.
É assombroso, porque não é ficção. É preocupante, porque não é um ato isolado. É desesperador, porque estamos perdendo nossos filhos para uma cultura da morte que se impõe com naturalidade.
"Temos construído esse cenário, gradativamente, pelo menos há 40 anos. A conta já chegou, e bem cara!", pontua o psicólogo Carlos Aragão.
O Ministério Público acompanha o caso e prometeu providências, mas é preciso ir além da resposta institucional. Não se combate essa realidade apenas com boletins de ocorrência ou visitas de inspeção. É preciso investir em educação, em cultura, em presença do Estado real e efetiva. É preciso quebrar o ciclo de poder do crime dentro das comunidades e devolver às crianças o direito de serem apenas crianças.
Tudo isso antes que o crime continue sequestrando a infância brasileira - e o futuro do país com ela.
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