
O caso de Francisco Wanderley, apelidado de "homem-bomba" pela mídia nacional, é uma aula prática de como narrativas podem ser fabricadas na velocidade da luz e sustentadas mesmo diante de fatos que as desmentem. Num país em que discursos ideológicos e interesses políticos se entrelaçam com a cobertura jornalística, assistir à transformação de um suicídio em praça pública em "atentado terrorista" não surpreende, mas incomoda.
Francisco Wanderley, ou "Tiu França", como era conhecido, não se enquadra em nenhum perfil clássico de terrorista. Não há registro de ligações suas com grupos extremistas como Hamas ou Hezbollah. Muito menos de articulação com organizações paramilitares ou ideológicas. O que temos é o retrato de um homem desajustado, que, como muitos, encontrou na radicalização política um pretexto para extravasar sua instabilidade usando, acredite: 'rojão de vara'. Seria até hilário, não fosse tráfico.
Apesar disso, a narrativa oficial insiste: Wanderley teria orquestrado um "atentado" contra os Poderes da República, usando... fogos de artifício. É surreal. As câmeras de vigilância do Supremo Tribunal Federal mostram um homem desorientado, descompensado, agindo sozinho e sem sequer ameaçar os seguranças. Seu ato final? Uma explosão que não passou de uma tragédia pessoal gravada e depois transmitida exaustivamente em cadeia nacional.
Um "homem-bomba" cuja carga explosiva, confeccionada com 'rojão de vara', e cano de pvc, era incapaz de causar danos reais aos prédios dos Três Poderes. Um carro estacionado no Anexo 4 da Câmara, supostamente carregado de armadilhas letais, mas que apenas soltou fogos de artifício. Mais uma vez, 'rojão de vara'. A narrativa cai por terra quando confrontada com fatos. Wanderley era uma ameaça a si mesmo, e nada mais. Ou um terrorista disposto a atentar com os Poderes da República usaria o próprio veículo?
O próprio secretário executivo de Segurança Pública do Distrito Federal, Alexandre Patury, afirmou sobre os explosivos usados por Wanderley: "aparentemente, não é de destruição em massa".
A cobertura do caso levanta outra questão delicada: o impacto da divulgação irresponsável de suicídio. Especialistas alertam que reportagens sensacionalistas podem desencadear um efeito dominó entre pessoas vulneráveis. Mas, no Brasil, a prudência é frequentemente atropelada pela ânsia por audiência e reforço às narrativas. A exibição em rede nacional de televisão do suicídio de Wanderley na Praça dos Três Poderes foi um espetáculo macabro, que deveria nos levar a refletir sobre os limites éticos do jornalismo.
A lista de incoerências cresce. O homem que "atentou contra a democracia" seria um bolsonarista. Como assim, se Bolsonara estava em sua lista de 'alvos' a serem eliminados? Fato esse desprezado pela grande mídia. Portanto, a narrativa de associá-lo à direita bolsonarista também caiu por terra. A narrativa do "ato coordenado" perde força quando se percebe que ele agiu completamente sozinho. Até mesmo as declarações da ex-mulher, que sugerem uma mente transtornada, foram usadas para inflar o caso de proporções absurdas.
No final das contas, Francisco Wanderley causou sofrimento apenas à sua família e talvez ao ministro Alexandre de Moraes, que, desta vez, não pode prender, processar ou condenar um morto. A tragédia expõe não só a fragilidade das nossas instituições, mas também a superficialidade de uma imprensa que se contenta em repetir narrativas oficiais, por mais frágeis que sejam.
E o Brasil segue sendo o palco de narrativas convenientes, onde o real e o absurdo dançam juntos, muitas vezes ao som de fogos de artifício.
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